Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências
Revista TriploV de Artes, Religiões & Ciências .
ns . nº 55 . dezembro 2015 . índice


   
MANUEL NETO DOS SANTOS

Sobre o oásis

Manuel Neto dos Santos (Portugal, 1959. Frequência superior em filosofia.
Autor de vastíssima e multifacetada obra poética,
grande parte dela ainda inédita.

Das poucas coisas absolutamente necessárias, eis a ternura quando há tanto por dizer e tão breve a vida. Amemos pois, num país vocacionado para o suicídio, como um sol sumarento, como se ele mesmo fosse o cardo coalhando um imenso mar de luz, nas serras a poente. Das poucas coisas absolutamente necessárias, eis o o gostos pelos espaços soberanos nos meus versos, numa cumplicidade estelar como se a bússola fosse eu mesmo e ainda não soubesse para que irrompe a luz através da escrita, co mo um espanto desnorteando a nostalgia, habitado que estou pela graça das palavras… Das poucas coisas absolutamente necessárias, eis a escuta do coração da terra, par que não me distraia com o ruído do mundo; lembrando-me a brancura acidulada no regresso sobre os eirados seguindo, com o olhar, o rápido e estridente voo dos gaios e a leveza do pó pelo andar apressado dos rebanhos. Das poucas coisas absolutamente necessárias, eis a memória de ti, do teu corpo desnudado, sobre o feno quando toda a natureza falava das noites de prazer enquanto, ao longe, o mar nos copiava os movimentos de vai- vem, também do nosso sangue terroso de vermelho a dizer, nos lábios, que éramos nós, então, o centro do mundo. Das poucas coisas absolutamente necessárias, eis o suco, que por vezes à tarde, me obriga a sonhar contigo ainda acordado que, ao contrário do amor, a minha poesia não ensina o que quer que seja para além da minha busca linear, breve, luminosa, como é luminosa a claridade que adormece nos sulcos rasgados na terra. Das poucas coisas absolutamente necessárias, eis o sentir- se bem como um gato ao sol, com essa necessidade que se irmana do pão e do amor, como um fascínio pela palavra justa, bárbara e fascinante, como são bárbaras e fascinantes as palavras com que trazemos a soalheiro a vida inteira. E outras há… outras coisas absolutamente necessárias, das quais ora não me lembro, talvez quando morrer…que seja esse vocábulo, pois, o mais necessário e derradeiro.  

Ad retro; o peito, gasto, a referver de amores como se a vasta fronte albergasse um mar de ideias celebrando as canções e os brios numa lírica escolta entre tojos e carrasqueiras…

Tal como nos tempos idos, de mármores e de alabastros, cinzelo os versos feitos de modéstia e de talento…

Ad retro, falsa realidade diurna pois, em meu coração, trago um viajante pela noite imensa que redescubro e ainda invento.  

Nascem da luz e do barro as ávidas neblinas procurando as tuas mãos; os dedos têm a dureza das pedras e as carícias o aveludado do musgo tenro, no recolhimento das alfombras… Tudo sombrio, sob o recorte dos verdes, para que eu viagem pela planície da infância e me reencontre na seiva dos sonhos.

Nascem da luz e do barro as horas fugidias, e fogem os dias. Ao largo das varandas de cal, ao longe, o cântico das areias para que as ideias se componham como azulejo andalusino… O cálido perfume da brisa, sobre a tua pele, como se rasgam as veredas na aridez dos campos, pelo caminho tantas vezes repetido.

Nascem da luz e do barro os barcos que regressam, no som da tua voz, par que as mãos desenhem, nas sombras das nuvens sobre as velas dos outeiros, desatadas, as formas do teu rosto. Aperto, tal como apertava, os aromas como perfis gravados ao sol e ao vento, transfigurados nos requebros dos goivos e das rosas…

Nascem da luz e do barro os cardos esquecidos e autóctones, como são naturais os meus braços ao relento, esperando o teu regresso. Oscilo, como um pássaro no alto de uma espiga ou uma libélula na folha esguia da tabua…

Nascem da luz e do barro os meus poemas quando, detrás dos escafelos negridos do céu, reaparece, no palco da abóbada celeste, tímida e insegura, a claridade da lua. 

Para o amigo Beto Kalulu 

Ainda não foi hoje que resolvi todos os problemas do mundo; que o mundo está latejando de trémulas balbúrdias nos espaços sem limite e eu apenas estou por aqui para tentar saber do limite do tempo, tal como se aprende os declives dos sulcos das montanhas africanas.Ainda não foi hoje que resolvi todos os sonhos de músico como poeta, que os sonhos de poeta e músico me enrolam pulseiras de versos e os sons, como lanças, vêm rasgar golpes na essência para que vos façam (extra) vazar a seiva do espanto e o sangue nada mais seja que o aroma a iodo, como labaredas, incendiando o capim de bruma e maresia.Ainda não foi hoje que consegui descrever o rumor dos tambores acordando a terra escaldante da savana; os sons iniciais na ponta dos dedos, como carícia sobre a epiderme das manhãs; depois a palma do meio dia, num crescendo galopante, e s aves retomam o voo, riscando o céu flamejante espelhando, sobre a majestade do Nilo e a timidez do Arade, o seu serpentear feito de penas… e o dedos ganham a agilidade das gazelas e o sonho a altura sobranceira da visão das girafas.Ainda não foi hoje que resolvi todos os problemas do mundo mas, por onde quer que vá, gentes de todas as raças, crenças e idades sentem, no pulsar do sangue, a Arte Maior e tribal de destronar o silêncio, com a ponta dos dedos… e todos os problemas do mundo se resolvem…que o diga o sorriso à flor dos vossos lábios.   
Para Josefa Lima

 

Há duas margens, para o deslumbramento das cidades. Atravesso o rio, sem lhe tocar, atravesso-o e sou gente numa moldura de barcos e de azáfama, de casas e de carros levando gente e, dentro dela, vidas, sonhos, mortes e desesperos. Para o rio sou, eu mesmo, a ponte por querer estar do outro lado.

Do outro lado, de lá, aqui há também pastores e músicos e poetas, essa gente que tudo sabe sem nunca ter aprendido e vive de distâncias que trazem, para mais perto de nós, as etéreas divindades de existir. O poema é a travessia e a travessura que infligimos ao corpo, e os sentidos pagam-nos da mesma moeda por amealharmos os silêncios como séquito real de esmolas.

Há duas margens par o deslumbramento das serras e das estepes perfurando o céu para que a luz escorra, numa profusão de claridade; como gente emoldurada por arbustos, regatos, canto dos pássaros invisíveis, no labiríntico espaço por onde a aragem se recorta e ganha todas as formas.

Para a serra sou, eu mesmo, obstáculo redesenhando o fluir do vento, por me encontrar cá deste lado; tudo existe entre duas margens… apenas eu, nesta insatisfação constante ando, de mim, desencontrado.  

 

Excertos do LIVRO DO CORAÇÃO E DAS NUVENS

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