Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências
Revista TriploV de Artes, Religiões & Ciências .
ns . nº 55 . dezembro 2015 . índice


Joaquim Simões (Portugal).
Cronista, poeta, dramaturgo.
 
JOAQUIM SIMÕES
 
Quarta-feira
Uma história cartesiana

 

NOTA PRÉVIA 

Propuseram-me, há dois anos, participar numa antologia de contos de diversos autores, no âmbito da chamada História Alternativa. Como pano de fundo, o episódio da Monarquia do Norte de 1919, também conhecido como o Reino da Traulitânia.

Para quem não saiba, o Reino da Traulitânia chegou a abranger todo o Norte do País, com capital no Porto, conquistado pela revolta monárquica chefiada por Paiva Couceiro, no início desse ano. Os navios da República, porém, bloquearam a Foz do Douro, o exército republicano avançou por Trás-os-Montes, derrotou as forças do rei na batalha de Chaves e reconquistou a cidade ao fim de três semanas. D. Manuel II, esse nunca aprovou a acção armada – era um democrata convicto e recusou sempre regressar por via de golpes, quer militares quer palacianos. Porém…

E se tivesse havido, pouco tempo antes, um congresso científico no Porto, em que participasse um cientista russo, fugido aos bolcheviques e apoiante do Czar, autor de uma descoberta revolucionária que permitiria utilizar o álcool presente no vinho como fonte de energia em larga escala? E se os partidários da realeza o convencessem a ceder os seus conhecimentos em prol do restabelecimento da monarquia em Portugal? E se D. Manuel voltasse ao país e o Porto resistisse, assim, por três anos, até 1922?

O que poderia ter sucedido?

De modo a garantir a unidade que deveria reger o conjunto dos contos, aludi, no meu, a dois elementos presentes naquele que João Barreiros terminara dias antes:

– o  rei estaria casado não com a princesa Augusta Vitória mas com a diva do cinema americano da época, Mary Pickford;

– os corvos, através da introdução de uma mutação genética, teriam agora capacidades de memorização e reprodução das conversas entre os cidadãos, tornando-se deste modo num bando imenso de informadores da polícia monárquica,.

A antologia acabou por não obter o financiamento necessário à sua edição, pelo que aqui deixo o que preferiria designar por um “romance-bonsai”. Ao longo do que escrevi, respeitei integralmente os elementos dos episódios históricos referidos bem como os dados biográficos das personagens neles envolvidas, datação semanal incluída. 

Joaquim Simões

 

Talvez 1 

Um… dois… três… quatro…

Não.

É: um… dois… três… quatro… cinco… seis… sete… oito… no…

Não… enganei-me… não é… E aqui…? Ou…

Recomeça: um… dois… três… não, está escuro demais… não é possível…

Deve ser ainda meio-dia… nevoeiro, é nevoeiro, é do nevoeiro que entra lá por cima… Assim não se consegue contar as manchas nas traves… Tenho que as contar, senão endoideço… ainda endoideço…

Amanhã.

Ah, não!... não…! Amanhã… amanhã… amanhã… amanhã… amanhã! 

 

Talvez 2 

– … Pois… isto não se parecia nada com o que vê … Quando eu era catraio, nem praticamente vinha para estes lados. Só havia campo, tudo terrenos e quintas até quase à praia, aí uns bons cinco ou seis quilómetros que o pessoal da aldeia cultivava. Chegava para comer, para vender, e ainda se arranjava alguma coisa para as vacas e para os porcos… A carne também era diferente… era melhor, nem tinha comparação com a que a gente come … Hoje há mais fartura, é verdade… Sim, porque houve uma altura em que fome é que não faltava por aqui… Segundo me dizia o meu avô, que Deus guarda, que viveu nesses tempos…

 Volta não volta, dava-lhe para ali. Como se falar com alguém que nada soubesse daqueles sítios pudesse ajudá-lo a encontrar uma razão de ser para este mundo. A dar algum sentido à vida dele e à de todos: os que conhecia, os que conhecera, os que nunca conhecera, os que nunca viria a conhecer – à de toda a gente, à desta coisa toda que, no fim de contas, cada vez mais era, para ele, um mistério. Algo que lhe evitasse a angústia imprevista, parda, que, a partir aí do meio dos quarenta, o avassalava às vezes como um nevoeiro a embrulhá-lo das tripas ao cérebro, como uma cova imensa a abrir-se-lhe de súbito por dentro… uma cova que lá tivesse estado à espera desde o nascer.

Agora, esse alguém era o forasteiro que entrara e perguntara se ainda seria possível servirem-lhe uma refeição àquela hora. Sentado no banco corrido duas mesas ao lado da sua, já sem mais ninguém na tasca além deles e do taberneiro, pedira também que lhe indicassem uma pensão onde pudesse pernoitar antes de rumar a Valença. Isso havia sido o pretexto para começar a desfiar a sua reserva de recordações de pequenas alegrias e prazeres. O homem escutava-o – parecia-lhe – com interesse suficiente para se permitir fazê-lo, enquanto esvaziava a tijela da sopa colherada atrás de colherada, e depois, garfada após garfada, ia engolindo a carne gordurenta acompanhada de batatas escurecidas pelo óleo demasiado quente, de três ou quatro folhinhas de alface e de umas quantas rodelas de tomate e cebola crua, salpicadas de orégãos.

Aproveitou o momento em que o outro pediu um copo de vinho para ir buscar mais um para si ao barril do “especial” colocado lá ao fundo, junto à porta tão escurecida pelo uso como o mobiliário que dava para o pequeno pátio empedrado por detrás da taberna – coisa a que só estava autorizada a freguesia habitual. Primeiro, porém, pegou no do cliente, que o tasqueiro se preparava para aviar, enchendo-o antes de encher o seu e levando-lho, no gesto de cortesia devido a quem se dispunha a ouvi-lo de tão boa-vontade. Pelo meio, espreitou para dentro do balcão tentando ver se sobrara qualquer coisa dos petiscos do dia que acompanhasse o último copo e, sem precisar de mais, o ti Adelino passou-lhe um pratinho com o que restava, na frigideira, da refeição preparada para o cliente de ocasião, fazendo-lhe entender, com um gesto de cabeça, que era oferta da casa.

Tornou então a sentar-se, apoiando as costas contra os azulejos encardidos que revestiam até meio as paredes em azul acinzentado, de tinta a descascar, e, entre mastigadelas e golinhos de “especial”, continuou a desenrolar o filme da memória construída sobre os lugares que haviam dado – e, segundo o que tudo indicava, embora ninguém saiba o dia de amanhã, continuariam a dar – matéria e forma à sua vida. O Vicente, o corvo que animava o tasqueiro e os fregueses da Cova Funda, provocando a risota ao debitar os palavrões que lhe ensinavam e o assombro com as suas habilidades no poleiro, crocitava em fundo ou entoava, num grito abrupto, os sons aprendidos nos últimos dias. Levantou-se de propósito para lhe dar uma côdea mais um pedaço da carne, um pouco adocicada, e a ave quase lhas arrancou dos dedos. Riu-se.

– O sacana…! Se eu não fugisse tão depressa com a mão… Até os corvos, sabe!... já não é a mesma coisa… Contam os mais velhos que, antigamente, bicheza desta era uma praga. Havia bandos e bandos e bandos que estragavam tudo em Gaia e por aí acima. Mesmo no tempo do meu pai ainda eram bastantes. Acho que tiveram que pôr armadilhas com veneno para conseguirem acabar eles, quando não era a tiro. Hoje, vê-se um ou outro. Lá para cima, no Douro já perto de Espanha é que ainda há bastantes… segundo dizem, eu nunca lá fui…

O homem demorou-se um pouco para além do fim da refeição, escutando-o pelo menos o bastante para também lhe fazer perguntas acerca deste ou daquele pormenor ou expressando o seu apoio ao que ele se vira obrigado a fazer neste ou naquele caso. Já o Adelino e o filho, o Quim, arrumavam o estaminé para o dia seguinte, bocejando de quando em vez de maneira a dar a entender discretamente que estava na hora de fechar, quando a corrente das histórias afrouxou o suficiente para que o outro se levantasse e fizesse menção de sair, depois de ter pago e agradecido a gentileza de uma refeição tardia. Acompanhou-o e, debaixo do alpendre coberto por uma latada de onde, no Outono, tinham pendido cachos de uvas brancas, agarrou-o por um braço, puxou-o para a esquina da tasca que confinava com uma espécie de beco e apontou para o que ainda restava de pé de um celeiro no meio de um terreno, por enquanto desocupado.

– Aquilo… está a ver… ali, à frente… aqueles restos de paredes… e os paus grandes, amontoados… era a única coisa que havia aqui antigamente, aquilo era a única coisa que havia uns dois quilómetros em redor. Acho que servia para guardar forragem para o gado, mas, mesmo já nessa época, não era utilizado. Agora serve para os pedintes irem lá dormir ou para se esconderem os que andam para aí, na malandragem… porque de vez em quando, à noite, a gente vê umas luzinhas a tremelicar… enfim…! Olhe, bem dito bem feito, uma… o que lhe passou agora à frente deve ter sido um gato… gatos não faltam por ali, uns vizinhos dão-lhes comida, vão levar restos aos bichinhos… que por aqui há muita rataria, dão jeito, os gatos… Algumas daquelas pedras ainda foram aproveitadas para fazerem estas, da taberna… Minto, havia um armazém agrícola, também a cair aos bocados, mais tarde deitaram-no abaixo. Ficava onde construíram o prédio onde vivo.

Despediu-se, por fim, com um aperto de mão vigoroso, desejando-lhe boa viagem enquanto o outro agradecia a companhia que lhe fizera. Só mais tarde se lembrou de que nem sequer se tinham apresentado. Puxou para cima a gola do casaco, protegendo-se da chuva babacenta de Janeiro que, entretanto, começara a cair, e rumou a casa, antevendo uma mulher pouco satisfeita pela demora e a comida requentada. Ao passar pela viela entre o prédio onde morava e o do lado, um alarme soou-lhe bruscamente na cabeça, fazendo-o virá-la a tempo de se aperceber, pelo canto do olho, de um movimento na penumbra. Parou por instantes, não fosse algum gandulo a preparar-se para o assaltar, mas tudo o que conseguiu vislumbrar foi a sombra de uma ratazana – ou seria a de um gato? – a mover-se lentamente no centro de um foco de luz esvaída e vacilante, provinda da janela da última cave, ao fundo, a sua. Ainda fez menção de averiguar do que se tratava, não fosse entrar-lhe um rato em casa, mas acabou por achar que não valia a pena, que a janela estaria fechada e, voltando a lembrar-se do jantar e da mulher à espera (mais da mulher do que do jantar, valha a verdade, a sopa já lhe bastaria depois do que petiscara), continuou a andar, acelerando o passo. Subiu o lanço de escadas exterior, deu as boas-noites ao vizinho com quem se cruzou à entrada, em seguida os três degraus do átrio, desceu os sete que levavam às caves, virou à direita e meteu a chave à porta.

 

Talvez 3

Fora ali, em 1686, depois dos dominicanos erguerem em Gaia um segundo Convento de Corpus Christi para substituir o primeiro, arruinado pelas cheias do Douro ao longo dos séculos, que o povo de Gulpilhares, emocionado com o fenómeno da luz misteriosa que passara a surgir naquele sítio todas as noites, decidira erigir a capela cujas paredes levantara já no sítio do arraial. Era ali, onde terminava a norte a praia de Arcozelo, naquele enorme penedo escuro, altar de anteriores ritos pagãos constantemente lavado pelas ondas, que o templo de forma hexagonal testemunhava, em branco e negro, a existência de um desígnio inalcançável pela compreensão humana, ao resistir incólume, século após século, às vagas em fúria que desabavam sobre a cruz que a encimava. Fora também ali que se dera o seu primeiro encontro após um afastamento com a duração de mais de uma década apocalíptica, como se o que os unira desde o primeiro olhar, quase vinte anos antes, fosse também a manifestação desse desígnio. E era ali que hoje, passados outros dois, durante os quais a esperança inicial se mudara novamente em desespero e presságio sombrio, haviam combinado estar juntos, porventura pela última vez. Pelo menos neste mundo.

O Inverno que, naquele crepúsculo de Janeiro, se ia erguendo aos poucos em vento e água, como se pretendesse afirmar de novo essa verdade superior e inacessível, envolvia-a numa chuva miudinha, tecida mais de gotas geladas roubadas ao mar pelo vento ainda brando do que por aquelas, esparsas, que as nuvens cinzentas e baixas começavam a deixar cair. Sentada no muro do terraço superior oposto ao da entrada, a que se tinha acesso por uma escadaria, à esquerda, olhando o infinito esboçado no voo das raras gaivotas, o sal das lágrimas silenciosas juntava-se ao dos salpicos que lhe fustigavam o rosto, queimando-lhe a pele. O frio, que a capa já meio ensopada lhe ia espalhando por todo o corpo, unia-se ao que a inundava por dentro, como o garrote que um carrasco perverso apertasse devagar enquanto lhe murmurava ao ouvido a esperança da chegada iminente do perdão. Mas a sua recusa a entrar na capela tornara-se maior do que nunca e preferiria morrer a fazê-lo. No meio do silêncio estrondoso do mar, surdamente embalada pelos súbitos e bruscos uivos da ventania, no seu espírito ecoava, estranhamente, com a força da mais mística das orações, o canto entoado nas romarias:

 

Bendito o Senhor da Pedra!

Bendito sempre sejais!

Não tenho nada de meu.

Oh Senhor, tanto me dais!

 

Ela nada tinha de seu. Mas o que era o que lhe fora dado? O cálice de amargura salvadora ou o instrumento da condenação eterna? E como entender o sofrimento que isso lhe provocava? Como o tempero necessário ou como o veneno aniquilador? Apenas a Sabedoria Criadora do universo poderia determinar sobre aquilo que, por ser a razão humana demasiado débil para o compreender, ela nunca estivera capaz de decidir senão por impulso cego. E a que ela acedera. No meio do terror e da esperança, no meio de uma confusão feita de trevas e de luz que a deixava sem qualquer resposta para onde estava, quem era, o que viria a seguir para ela, para todos.

Coubera-lhe decidir, sim – mas o que decidira? Irrompeu-lhe no espírito, mais forte do que qualquer desgraça profetizada em Patmos, um grito: “Não tens vergonha da vida que me deste?!”.

A sua alma voltou depois, impotente, de novo humilde, a converter-se em silêncio e escuta. Dobrou-se ainda um pouco mais sobre si mesma e esperou, o negro do vulto a invadir a escuridão crescente. 

 

Talvez 4

 A nossa espécie tem um presépio que, tal como o religioso serve para relembrar e celebrar o segundo início do Tempo, guardámos para nunca esquecermos que o Tempo e o Homem são da mesma idade. É a imagem para sempre gravada de uma fogueira rodeada por humanos a darem forma ao Tempo, alargando-o até infinito com as suas histórias; moldando-o, ao atribuir-lhes um princípio e um fim; esculpindo-o à sua própria imagem para só depois se interrogarem sobre o que ele é. O Tempo, esse algo vindo sabe-se lá de onde que lhes revelou as outras espécies como bichos, com o qual fizeram os tempos dos heróis e dos santos, dos canalhas e dos paladinos, da grandeza e da baixeza, da alegria e do desgosto, da miséria e do excesso, com tudo isso transformando a Vida no espelho onde veem erguer-se a criança e, logo depois, o cadáver a desfazer-se, para no final nada restar, nem sequer o Tempo.

Ali, de pé, as pernas afastadas, os pés fincados no chão, os punhos cerrados pela ira e pela impotência, era o seu presépio, em Setúbal, o que lhe surgia na mente, numa sensação de Origem e Eternidade que apenas a infância é capaz de tornar irrevogável. À lareira, ele e os tios, seus pais adoptivos por morte da mãe, única irmã da tia, ao dá-lo à luz, e também do pai, que emigrara para o Brasil quando a mulher ainda estava grávida, acabando por falecer meses depois devido a umas febres – é sempre assim, pelos olhos dos outros, pelas palavras dos outros, que começa a história que cada um fará de si. O tio conta-lhe a sua história de Portugal, a daqueles que considera grandes exemplos de visão, coragem e sacrifício, por cuja escolha ele mesmo, Artur Teixeira, rico comerciante de vinhos que subiu a pulso na vida, se convertera numa História de engrandecimento e progresso do país, no meio de outras Histórias, passadas e vindouras.

Portugal é a História do tio Artur, a História do querer e da generosidade com que o perfilhou, dando-lhe a educação que nunca pudera ter, não regateando o dinheiro necessário à satisfação da sede de saber do moço. E o Tempo, esse é a Vida, e essa é Portugal, sob o olhar terno e bondoso da tia Anastácia que abana a cabeça de vez em quando, sorrindo, embevecida com o ar maravilhado do sobrinho – o filho que lhes faltou no casamento, a quem, por vontade da moribunda, baptizaram com o nome de Sebastião – escutando o que ecoa no empolgamento do marido.

Apesar da sua proveniência humilde, o tio não se entusiasma com a República, muito menos com esta república jacobina, maçónica, carbonária e sabe-se lá mais o quê. Para ele, homem do povo – povo a sério, porque há povo e há povo ordinário, não se cansava de relembrar –, a monarquia é o melhor para qualquer país. Não há mal nenhum na existência de uma nobreza, nobreza quer dizer mérito e, para bem de todos, são os de maior mérito quem deve governar ou ajudar na governação. Desde sempre que quem governa precisou de se rodear de um Conselho de Homens Bons. Lá por hoje se venderem os títulos, e os fidalgos serem, na sua maioria, gentalha arrogante e pouco séria, o que deve acabar é esse abastardamento, não fazê-la desaparecer como se não existissem diferenças entre um vigarista e um homem honrado.

Não, estes republicanos não lhe merecem consideração alguma – uma cambada de invejosos e de gente enfatuada e sem-vergonha, mais preocupada com os seus interesses e atenta à sua vaidade do que à nação. Basta lembrar as mentiras, o babujar de calúnias e veneno que despejaram, sem o menor escrúpulo, para atingirem os seus fins, sobre um pobre jovem de dezoito anos obrigado a subir ao trono numa situação trágica, exalta-se ele. Um garoto tão preocupado, porém, em resolver a crise do reino, em engrandecê-lo de novo, que encomendara um estudo sobre o estado do reino, pagando-o do seu bolso, a cientistas internacionais. Alguém tão simples e dado a ponto de abolir o protocolo anual do Beija-Mão Real. Sabe-se até que ele gosta de Antero de Quental, que ainda há pouco tempo, no exílio, entrou em conversações com o Partido Socialista. E recorda os exemplos de gente como o grande Eça de Queiroz que, no final da vida, regressou às hostes monárquicas; ou Oliveira Martins, que chegou a ser ministro da Fazenda de D. Carlos; ou o próprio Ramalho Ortigão, inflexível na sua honestidade, que repudiou o odioso carnaval republicano dois anos após o golpe. Só o ingénuo Teófilo Braga continuou fiel àquela desmiolação, mesmo depois de certamente se ter apercebido do desastre que ajudara a impor.

A nobreza é o esteio da história do tio Artur, uma nobreza de acordo com o seu carácter e com o daquele que o ouve. O Portugal do tio é o Portugal de que ele, Sebastião, faz parte, quer fazer parte, o Portugal que é ele próprio, a nação inscrita no Tempo e que com o Tempo se confunde. E a História dos descendentes espirituais de Viriato e Afonso Henriques joga-se hoje no combate entre o que a quer destruir – a sanha e a sede de poder da canalha que se alberga e esconde à sombra daquela horrível bandeira verde-rubra, do povo ordinário de que fala o tio – e os que a defenderão, com a própria vida se preciso for – que ninguém tem o direito de silenciar pela força a voz dos antepassados nem de ignorar o esforço com que ergueram e mantiveram a Pátria, muito menos, com rematado cinismo, de se assenhorear desta em nome da liberdade.           

 

Talvez 5      

– Que julgaremos, então, de tudo isto?

– Não temos escolha, só a condenação à morte nos convém.

 

Talvez 6

 Despertou da letargia, sacudindo num repelão o desespero que lhe tolhia a mente como uma camisa-de-força. Fizera-se noite, o vento soprava de hora a hora mais forte, a chuva, embora miudinha e pouco intensa, caía agora sem cessar, obrigando-a a cozer-se com a parede para se abrigar debaixo do beiral estreito. O fogo que a consumia por dentro era, porém, bem mais frio do que o frio sofrido pelo corpo. A memória do que lhe acontecera recuou numa vertigem, até já não ser ela, até ao fundo do mais fundo de todos, todos, todos a passarem como num teatro de sombras que narrasse algo sem fim nem sentido. Algo que jorrava sem cessar, sem a qual as sombras nem sequer existissem. Talvez. Sombras, mas sombras como se fossem de carne e osso, sombras doídas, sombras com rosto e história que não chegava a sê-lo, apenas um caos em que se animavam num arremedo de dança. Sombras que se agitavam ao som de palavras como prazer e dor, virtude e excesso, volúpia, crueldade, santidade, culpa, piedade, redenção, alegria, luxúria… Palavras que, no entanto, se ouvia como se poderia ouvir o vazio. E sombras que surgiam inesperadamente para inesperadamente se esboroarem e desaparecerem. E como se também ela fosse uma dessas sombras que, por momentos, houvesse saído de cena e contemplasse, transida, a eterna noite do universo que sóis enganadores encobriam.

E coisas que eram as sombras dessas sombras ou as sombras no meio das quais as sombras se moviam. Como compreender, porém, que o espírito consiga distinguir, com imaculada nitidez, o que os sentidos nunca conheceram?! Ali estava ela, contudo, na margem do rio, a mole do primeiro mosteiro de Corpus Christi. E, estacando subitamente à sua frente, a fidalga de Gaia que o mandara construir e o entregara à Ordem de S. Domingos, Maria Mendes Petite, viúva do trovador Estêvão Coelho, ambos pais – e animava-se em sacões histéricos o que se assemelhava a um baile infernal! – de Pêro Coelho, matador da Castro. A cabeça inclinada, a face sulcada de interrogações esmagadoras, desapareceu em seguida, o corpo a bambolear-se sem nexo, como que levada por um mecanismo de feira cilíndrico na frente do qual surgia agora Daniel O’Daly, o fundador do primeiro convento de mulheres dominicanas do mundo, em Lisboa, três séculos atrás. Assomou brevemente, saltitante, com o ar apressado de a quem ainda muito faltasse para a terminar a missão a que se obrigara de salvar os católicos irlandeses perseguidos pelos protestantes, a expressão contraída num rictus de angústia, gingando, o torso vergado ao peso de um fardo assumido mas que não escolhera – a sombra, maldosa, a transformá-lo numa corcunda.

Mas Teresa!, Teresa!, amiga sobre todas as outras, irmã, mãe se não pela carne pelo menos pelo espírito que lhe sustivera junto ao precipício, que abrira a sua alma à certeza de um destino maior e mais elevado, que lhe oferecera a sua companhia por toda a Eternidade, Teresa, que deixara este mundo seis anos antes, porque entrava também ela naquele carrocel infernal, também ela numa agitação sinistra? Teresa de Saldanha, condessa de Rio Maior que, tal como o dominicano Tomás de Aquino, contra o destinado pelo berço fundara a Ordem das Irmãs de Santa Catarina de Sena, que utilizara toda a sua fortuna para fundar asilos e colégios onde o cada vez maior número de desgraçados e pobres feitos pelas guerras civis e pelo regime corrupto pudessem ser auxiliados e educados. Teresa, que ao fim de sessenta anos vira os bens da Ordem confiscados pela República, que, como algumas das suas companheiras, refugiadas em casa de familiares e amigos, se recusara a deixar o país, morrendo na miséria numa pequena casa alugada. Teresa, de quem fora aluna, que a ouvira, a compreendera e a confortara, anos mais tarde, quando a sua vida ruíra até à perda de qualquer sentido, que lhe revelara o rumo dado no Começo. Teresa!, Teresa!, porque emergia também ela, saracoteando-se como uma marioneta manipulada por um ser frenético, o rosto a contorcer-se num esgar zombeteiro, quase diabólico?

O medo irrompeu, poderoso, trocista, a inundar a fé em que se julgara firme, a revolver-lhe as vísceras, a enrodilhá-la numa funda pequenez. A ela, que, com a Monarquia do Norte, viera para Gaia dar nova vida ao segundo Convento de Corpus Christi, vazio havia cerca de três décadas pela morte da última Irmã, Marcelina Viana. A ela, a Irmã Mariana de Jesus, a Madre Superiora, a ama maldita do rei, a quem ele impusera uma escolha que a ninguém se deveria exigir. 

 

Talvez 7           

Suaken (1)…

O calor parece fazer vibrar o chão, e o ar sobe, em ondas sufocantes, até para lá de onde a vista alcança. O sol é o servo maior deste inferno de céu azul em que nenhuma nuvem se atreve a penetrar. O corpo a esvair-se em suor, a boca seca, o corpo atabafado na própria pele que apetece arrancar, como um peixe a procurar ver-se livre da rede.

Sebastião!

Suaken…

Ao ataque! Ao ataque! Direito à morte que virá, devagar… O corpo sacudido, massacrado pelo ferro e pelo galope… Inesperado, ululante, o inferno é agora um vórtice em que rodopia, mas como se não fosse ainda mais do que a miragem de um outro, que sente a chamá-lo de algures. Sebastião! Gritos que não parecem provindos de gargantas humanas, que levam a morte a reluzir nas espadas, a zunir nas balas, abafa-se-lhe a voz no pó do tumulto.

A dúvida inesperada, espantosa, sobre o que faz ali, o terror imprevisto, um choque no peito…

O pelo macio, creme em gradações suaves a chegar ao branco puro no peito, a desenhar meias nas patas traseiras e pequenas luvas nas dianteiras, a envolver a boca e o nariz rosado. Riscas em castanho-escuro a debruar o corpo, algumas em cinzento forte, a sobressaírem do cinzento claro mesclado, olhos de um azul invulgar, suavíssimo, líquido. Estrábico, fixa-o, ora meigo ora inquieto. Um animal que inspiraria qualquer imaginação com fábulas e lendas de encantos e sortilégios, da luta infindável pela felicidade e harmonia eternas num mundo desde o começo ameaçado pela tirania do mal, disposto a subjugá-lo.

A libertá-lo do sonho repetido, angustiante.

Aninha-se-lhe entre o estômago e o pescoço. Corresponde às carícias feitas pelas mãos que lhe percorrem a nuca, pelo movimento dos dedos a passarem-lhe suavemente em redor das orelhas, pelos malares ou ao longo do maxilar inferior. Estende o pescoço com deleite, fecha os olhos e aquieta-se, por fim, o queixo apoiado nas patas dianteiras, ronronando, até adormecer. A chegada do gato restabelece a serenidade e o equilíbrio que as circunstâncias se encarniçam em retirar-lhe. Mas por quanto tempo?

Ninguém, além de quem o sequestrou, se fez ouvir até agora por perto daquele armazém agrícola a caminho da ruína na costa nortenha, perto de Gaia. Nem sequer o ladrar longínquo de um cão, somente os gritos das gaivotas e, por vezes, o crocitar de um corvo. Quando saiu do desmaio, três semanas antes, apenas se conseguiu aperceber de que era dia devido à claridade fraca a escoar-se por alguns orifícios a uns bons cinco ou seis metros de altura, feitos menos para iluminar o interior do que para circular o ar e, mais alto ainda, por um pequeno buraco aberto numa parte apodrecida da telha-vã.

Fora a manta com que se cobre para dormir no monte de palha a um canto, de uma pilha de jornais destinados à higiene e de uma bilha com água, meio escaqueirada, nada mais lhe deixaram. Nem sequer, como nas prisões, um balde destinado às necessidades – percebeu depois que não querem correr o risco de ele o utilizar como arma nalguma tentativa de fuga. Vê-se por isso obrigado a enrolar as fezes nas folhas de papel e a urinar sempre no mesmo sítio, do lado oposto àquele em que dorme, cobrindo depois tudo com palha retirada à cama. Levaram-lhe o relógio, e é pela intensidade e inclinação dos raios luminosos ao penetrarem na abertura do telhado que consegue calcular as horas.

A porta, grande, pesadíssima, está munida de uma fechadura de bom tamanho, embora não se encontre trancada por fora nem sequer com cadeado – reparou nisso na noite em que ali o levaram, antes de lhe baterem na nuca à falsa-fé, e também porque nunca ouviu senão a chave a entrar e a rodar quando a abrem. Impossível trepar para alcançar os respiradouros e gritar por um socorro duvidoso através deles, não existem apoios possíveis, unicamente umas traves meio apodrecidas pregadas na parede, colocadas e distribuídas de tal modo que só um gato consegue utilizá-las. É, aliás, servindo-se delas, que este vai e vem desde há dez dias, passando pelo buraco na telha-vã.

Dez dias… Mas tudo principiou há bastante mais tempo. No dia 7 de Setembro, quarta-feira, um mês antes do seu décimo oitavo aniversário, a 7 de Outubro, iniciou a preparação da missão que se impôs. Depois, a 7 de Dezembro, outra quarta-feira, deu começo à aventura, metendo-se ao mar, rumo ao Porto. Para, arriscando a vida no oceano encapelado pela invernia e sempre na iminência de ser interceptado e preso por um navio da República, chegar a Arcozelo na quarta-feira seguinte e sofrer a traição daqueles em quem confiara.

Deixou uma carta a dar conta daquilo a que se propusera, o que faria para o alcançar, pedindo que rezassem por ele e pelo seu bom êxito, prometendo fazer chegar notícias suas antes do Natal. A noite mais sagrada do ano passou-a, afinal, ali sozinho, num tormento indescritível pelo sofrimento imerecido dos que àquela hora estariam a chorar por ele. A passagem de ano encontrou-o num desespero muito próximo do que seria o suicídio, que teria cometido se lhe houvessem deixado à mão algo com que fazê-lo. Mas não, nada, nem sequer uma tesoura romba para cortar o cabelo hirsuto e a barba, onde a tortura da comichão feita pelos piolhos se acrescenta à das pulgas que lhe infestam a roupa imunda.

O gato desperta, ergue-se, espreguiça-se em arco, a bocejar, desce-lhe do peito para o chão, volta a espreguiçar-se, a esticar as patas traseiras, salta de trave em trave para alcançar o buraco e desaparece para lá dele, deixando-o de novo entregue a alguém que já só por vezes sabe quem é.

 

(1) Aldeia perto da qual se deu a batalha de Alcácer-Quibir.

 

Talvez 8 

O cabo Garção senta-se numa pedra à beira da vala que acompanha aquele lado da estrada, a uns dez metros do buraco escavado por um obus, perto de uma árvore que o Inverno despiu, a metralha esfuracou e a explosão calcinou. Puxa das mortalhas e da bolsinha do tabaco, enrola meditativamente um cigarro, mas acaba por o guardar na caixinha que retirou de outro bolso da farda. A primeira fumaça é substituída por um suspiro, enquanto o olhar se lhe perde no meandro de telhas e vigas de madeira destroçadas em que se transformou o telhado da última morada daquele extremo da pequena povoação, atropelada pela guerra.

Passou uma hora e meia sobre o fim da escaramuça com uma coluna dos monárquicos surpreendida a abastecer-se e os aldeões começam a regressar, ainda a medo, não volte ela a reacender-se. Uma mulher cobre o rosto com o avental, sufocando o choro convulsivo que a toma ao ver a sua casa com as paredes crivadas de balázios, a porta da entrada esburacada, pendente dos gonzos, os vidros das janelas partidos. Um homem de meia-idade, com as calças e a camisa rasgadas pelas moitas onde se escondeu a distância segura, entra no quintal e volta a sair pouco depois, os olhos carregados de mágoa e ódio, arrastando ostensivamente, em silêncio, um vitelo morto diante da tropa que por ali circula. Um velho, encostado à bengala, cambaleia rua abaixo até a um portão escancarado, espreita para o que seria uma pequena horta e encosta a cabeça às costas da mão pousada numa das colunas em que ele assenta. Vira-se um pouco, fita olhos nos olhos o militar e pergunta, em voz apenas audível “Agora, o que é que eu vou comer?”, num desalento conformado de quem acha alívio na ideia de que a morte não deverá tardar. Duas crianças procuram socorrer um cão moribundo, que gane e ameaça mordê-los quando lhe tocam na perna esmagada. Uma outra insulta a soldadesca, atira-lhe as pedras mais pequenas do muro derrubado, enquanto o pai, também ele de cabeça perdida, quase lhe bate para o levar dali, não vá o diabo, sem querer, disparar alguma arma.

Apenas consegue desviar o olhar para o chão, puxar o bivaque para trás no gesto que sente como o de quem já não é capaz de sentir, e assim ficar, os cotovelos apoiados nas coxas, as mãos entrelaçadas entre os joelhos. Desgosto, vergonha, revolta, raiva, porquê, contra quem… um pandemónio, sem responsáveis nem solução que ele veja. Aos seus ouvidos chega a balbúrdia instalada, o ruído de botas a martelarem as ruas, ordens dispersas dos seus colegas aos subordinados à mistura com os palavrões do costume. Muitos devem andar à procura de uma pinga de aguardente ou de vinho que ajude a aquecer as tripas e a retemperar o ânimo, procurando adivinhar onde se esconderam as garrafas, rebentando as despensas, forçando os móveis e, após a busca infrutífera, pisando à saída, com indiferença ou crueldade, o que as pessoas cultivaram para o seu sustento. Ná!, não crê que alguma haja escapado ao confisco geral de tudo o que contém álcool pelas autoridades da Traulitânia em todo o Norte do país, para tentarem levar avante a sua loucura.

Tinha-a enfrentado, em Chaves, integrado neste regimento de que restam uns quantos elementos. Quando a batalha começou, algo de estranho que nunca experimentara se fizera dentro dele: uma espécie de surdez a todas as ordens contraditórias que relampejavam na sua mente, excepto às que lhe garantiam a sobrevivência. Disparara ao ouvir “mata, senão morres!” e o adversário à sua frente tombara, atingido na anca. Mas agora era o brado do ferido que lhe ecoava na mente, imperioso na aflição, impossível de silenciar na denúncia que fazia do absurdo de tudo aquilo: “Ai, as minhas belas filhas...!”. Outro instinto que não o animal fê-lo gritar para os camaradas que o seguiam um “Está ferido! Respeitem-no!”, e avançou enquanto eles se desviavam do homem. Por pouco tempo, o seu espírito sentira-se a salvo daquela aberração sanguinolenta: atrás de si, sobrepondo-se em alguns instantes ao estrondear macabro da fuzilaria, a voz do soldado monárquico chamava-lhe amigo. Essa recordação perdurara, mantendo-lhe a esperança negada pelo dia-a-dia, cada vez mais degradado e degradante. Não saberia, porém, dizer em quê. Apenas esperança.

Haviam vencido a batalha. Iniciaram depois a marcha em direcção ao Douro, que atravessaram junto a Peso da Régua, dirigindo-se a seguir para Oeste no intuito de atingirem a costa e, a partir dela, com o auxílio de reforços trazidos pela armada que cercava a foz do rio, expulsarem os monárquicos do concelho de Gaia e prepararem a tomada do Porto. Ao longo da caminhada vitoriosa, as tropas, passo a passo mais confiantes, faziam ressoar pelos campos e aldeias um estribilho, festejado com risos e aplausos por uns, levando outros a enfiarem-se em casa, temerosos ou rangendo os dentes:

 

Paiva Couceiro é valente,

mas lá em Chaves fugiu,

deu três peidos de repente.

Vá p’rá puta que o pariu!

 

Uma mão no ombro. A voz do cabo Valente.

- ‘Tás bem, moço? Não tens ferida nenhuma, pois não?

– Não tenho nada, Valente, estou bem. Assim estivesse a nossa vida.

– Vá, logo pensas nisso mais tarde. Levanta-te daí, que já ouvi magalas a perguntar pelo cabo Garção. Temos que avançar o mais que pudermos, antes que se faça noite. Deixa lá, um dia destes ‘tamos outra vez no nosso Alentejo. Tu, em Portalegre, e eu cá em baixo, em Beja. Falta pouco, carago!, como os gajos dizem aqui, no Norte.

Põe-se de pé.

Sacode a farda.

Apruma-se.

Continua.  

 

Talvez 9 

Não, não percebia. Nada fazia sentido. Não era possível compreender o desígnio divino que lhe desenhara a existência, dado que nada proviera da sua vontade, tudo lhe fora imposto desde o começo. Ninguém escolhe a natureza com que nasce e o que fizera fora apenas a confirmação daquilo que era, somente outro alguém agiria de modo diferente. Ordenado e santificado por Deus para todos os seres humanos, na existência que Ele lhe determinara o que fizera tornara-se, contudo, não somente num pecado como no motivo do maior e mais irremediável dos sofrimentos. Chegava a pensar que a Sua vontade criara um Purgatório ou mesmo um Inferno só para ela, aqui mesmo, na Terra, para que expiasse as faltas cometidas – quais… onde… quando…? E como podia o Bem, que Ele criou, transformar-se em Mal?

Há certezas que nos despertam no corpo, insondáveis para a mente, que a invadem e arrastam para algo mais originário do que a razão. São essas que decidem a nossa vida, não as outras, hesitantes, desajeitadas, de que a mente se ufana e a vontade se envaidece de seguir. Tinha sido uma dessas certezas, a maior que jamais sentira ou voltaria a sentir, aquela que, como uma onda diáfana mas indestrutível, parecera transmutá-la por inteiro quando os seus braços o acolheram pela primeira vez, firmando apenas o que a troca de olhares anterior afirmara já. Mas como, como era aquilo possível, perguntou-se no meio do atordoamento dos anos seguintes?

Tantas vezes se convenceu de que enlouquecera ou de que estaria a enlouquecer… Mas algo nele correspondia, a seu modo – no modo que lhe era possível –, ao que se passava com ela. Algo indefinível e, no entanto, tão concreto e presente como uma coisa, o que tornava tudo ainda mais maravilhoso e, ao mesmo tempo, num sofrimento inimaginável. Doze anos daquela agonia entre o prazer e o amargor, em luta permanente pelo equilíbrio da mente, impedida de procurar um desabafo fosse com quem fosse pelos riscos que isso traria consigo. Doze anos cuja recordação lhe era tão cara como repulsiva e destruidora, em que procurara esquecer-se de si para se encontrar a si mesma nesse esquecimento.

Entrará o Tempo nas contas da Eternidade? Porque suprimi-lo é destruir a memória, varrer o momento em que algo sucedeu, é fazer desaparecer o que se passou. “Aconteceu sempre” ou “nunca aconteceu” é a mesma coisa. Amar é acontecer. Mas o que lhe acontecera naquela quarta-feira, 7 de Janeiro de 1891, quando chegara ao palácio real, era algo que punha em causa o acontecer dela própria, algo que lhe parecia provir de um ser de humor diabólico.

Apresentara-se à rainha, recomendada por Teresa de Saldanha, a professora, querida sobre todas as outras, que continuara a visitar amiúde depois de ter saído da instituição por ela fundada e que, em criança, a recolhera das ruas bem como à sua irmã. A ama do príncipe D. Manuel, nascido havia pouco mais de um ano, revelara sintomas de tuberculose e fora, por isso, dispensada pela Casa Real. D. Amélia pedira a Madre Teresa que lhe arranjasse alguém capaz de amamentar e cuidar do filho mais novo, mas também da conduta e da inteligência indispensáveis para não provocar deformações no carácter do infante. Teresa indicara o nome da antiga aluna, procurando ajudá-la num período em que a sua vida havia sofrido revezes irreparáveis.

Casara três anos antes, aos vinte e um, com um antigo colega de orfanato, Daniel. O rapaz fizera-se num homem de figura e feições agradáveis, era honesto, trabalhador, e as amigas, vendo-o como o pai de família que desejavam para si próprias, felicitaram-na quando ele lhe propusera casamento, algumas disfarçando mal a inveja. Aceitara, julgava ser amor a amizade e a cumplicidade existente entre ambos, a sensação de segurança e serenidade causada pela sua presença. Os arrebatamentos descritos pelos romancistas e cantados pelos poetas, a deslumbrante revelação de uma encontro e fusão de almas, desde sempre e para sempre destinadas uma à outra numa orgia mística de corpos e espíritos, considerava-as então como fantasias ou artifícios literários, que encarava com cepticismo e humor.

Tudo correra bem até meio do Inverno anterior à sua ida ao palácio. Logo que engravidara, em meados de Março, porém, tudo se virara do avesso. A oficina de marcenaria que o marido conseguira montar com as economias feitas e pedindo alguns empréstimos, ardera por completo no incêndio provocado por um gato vadio que lá entrara e derrubara um candeeiro a petróleo, deixando-o sem trabalho e com dívidas por pagar. Seis meses passados, em Outubro, Daniel vira-se obrigado a emigrar, pelo que ela passara a viver em casa da irmã, entretanto casada com um pequeno comerciante. Uma febre tropical vitimara-o duas semanas após desembarcar no Rio de Janeiro, não chegando assim a saber que a criança morrera dez dias após o parto. Destroçada, visitara Teresa em busca de consolo e auxílio, e esta acabaria por a enviar para uma segunda etapa da sua vida, muito mais terrível e dolorosa, afinal, do que a anterior.

Como, como é possível, interrogava-se até hoje? Parecera-lhe que, num salto feito de energia por dentro de si mesma, o seu espírito galgara ao futuro e encontrara aquele menino de quinze meses não na forma de um homem mas de um qualquer princípio masculino original utilizado por Deus na Criação, que a complementava como mais ninguém conseguiria. Não era de um homem adulto que se apercebia em quem estava à sua frente, era de uma alma com quem a sua se unia no olhar em que ambos se encontravam e na maneira como lhe estendia os braços e cingia o pescoço quando lho passaram para o colo. A sua perturbação não passara despercebida a D. Amélia. Tomara-a, contudo, por um sinal de afabilidade, doçura e também do enleio que, com certeza, a invadira por se encontrar pela primeira vez na presença da rainha e do príncipe, sem suspeitar – como o poderia?! – do casamento de almas que ocorrera perante si. Desceram sobre ela o Céu e o Inferno, nesse dia em que a tomaram ao serviço do infante.

A ligação entre os dois era tão clara e tão forte que a rainha acedeu ao pedido de Manuel para não a mandarem embora quando passou o que deveria ser o tempo normal da sua permanência junto do príncipe. Costumavam elogiar-lhe a mestria a contar histórias e ela começara então a contar-lhe todas as que sabia: as que vinham na Bíblia, ouvidas às freiras; e as que ouvira a duas serviçais do colégio onde estivera – uma, já velhinha, de uma aldeia das Beiras, a outra, de meia-idade, vinda do Alentejo – que entretinham a criançada no dormitório antes de apagarem a luz. Histórias de fadas, duendes, príncipes e princesas, gigantes, anões, manhas, artimanhas e patranhas, cheias dos ensinamentos e fantasias com que o povo dele falava da vida e a enfrentava. Quando as esgotara, passara a ler-lhe as obras que o preceptor lhe entregava, vendo assim ela própria o seu mundo dilatar-se com palavras que antes desconhecia – mas também a tornar-se, às vezes, mais difícil de entender.

Ao fim de algum tempo, sentira-se capaz de se aventurar sozinha pelo meio dos livros e pedira autorização para trazer alguns da biblioteca para o seu quarto, onde os foi desbravando noites fora. Aquilo que retirava deles procurava comunicá-lo a Manuel de forma que este pudesse compreendê-lo sem esforço. Não sabia se a natureza do que existia entre os dois a isso a ajudara, mas o certo é que o conseguira quase sempre. E começara a correr, dentro e fora do palácio, que o infante demonstrava uma inteligência superior à da sua idade, que aprendera a ler com excepcional facilidade e rapidez, que o gosto que mostrava na leitura pressagiava nele um estudioso da língua pátria, ou até um escritor ou um poeta, talvez mesmo, quem sabe, um novo D. Dinis… 

 

Talvez 10

– ‘Tão, meu fidalgo? Dorme-se bem aqui? – Curtido entre a recolha do sargaço e a apanha do peixe na ria, o rosto patibular do Barbosa gingava um sorriso manholas, trocista, pelo meio da barba cerrada de uma semana, quando lhe levou a refeição na manhã do primeiro dia. Couves, pão de milho, mais um bocado de toucinho coberto de sal grosso, amontoavam-se num prato com o verniz estalado pelo uso e lascado nas bordas, que pousou num cepo ao lado da porta.

A barriga proeminente do outro vareiro que o acompanhava, ficando à entrada, de fusca na mão não fosse o caso de o prisioneiro se pôr com ideias tristes, fez ondular as nódoas de gordura e vinho que medalhavam a camisa sebosa numa gargalhadinha alvar, para que ninguém tivesse dúvidas sobre quem era ali o pateta que se deixa apanhar e de quem depende a vida de quem. – Sede não há-de passar, que tem aí água com fartura… - comentou no mesmo tom, apontando para a bilha escaqueirada.

– E frio também não – juntou o Barbosa –, que a palha é quente e, se se enrolar bem na manta que lhe demos, não lhe entra nenhum. Este Inverno anda rijo, a gente sabe que os “mouros” não estão habituados à maneira como ele nos casca aqui, no Norte… Mas não desanime, meu fidalgo, que isto está a acabar. Mais umas semanitas e a República toma outra vez conta do Porto.

– Não sou fidalgo, já lho disse – respondeu-lhe. O cabelo louro, os olhos verdes, o porte e, sobretudo, o alinho realçado pelo modo como se veste e cuida da aparência, leva muita gente a ver nele um aristocrata, parecido até com o rei deposto. Mesmo por estes lados, onde abunda gente de pele e pupilas mais claras, herdadas do antigo reino Suevo que se estendeu entre Aveiro e a Galiza a seguir ao desaparecimento do Império Romano.

– Não sei, não sei… – brincou o Barbosa. – Isso é o que vossemecê nos contou. Mas se não é, pelo menos acho que gostava de ser. Há muitos por aí que estavam à espera de que a monarquia voltasse para poderem subir na vida e foram fingindo que se mexiam, para o caso de isso se dar. Se acontecesse, punham-se logo em bicos de pés a dizer que tinham feito isto e mais aquilo pelo rei, para lhes darem um titulozinho ou um cargo qualquer. E se os republicanos lhes oferecerem alguma coisa, vai ver!, tornam-se logo republicanos, o que é que cuida? Mas não, vossemecê não é desses, não tem idade para isso, é uma criança, a vida ainda há-de dar-lhe muita porradinha até perceber como são as coisas na pocilga… Cá para mim, seja fidalgo ou não seja, vossemecê deve é fartar-se de ler livros…

– Sim, li bastantes livros. De História, principalmente. Por isso…

– Nem era preciso dizer, topo-os logo pelo pisar… – atalhou o Barbosa. – Falam todos como se estivessem a olhar para o belo dia que aí vem e que só eles é que veem.

– Ler muitos livros seca o juízo à gente – meteu-se o comparsa, repetindo, sem saber, o que Cervantes dizia da loucura de D. Quixote.

– Ora bem… Aqui o Chico mal sabe juntar as letras e não precisou de mais do que isso para perceber que há muitos que, por andarem sempre c’os livros à frente do nariz, não enxergam onde põem os pés nem as curvas do caminho. Sim, porque neste mundo, os caminhos a direito são raros… Quer um exemplo de uma pessoa dessas? Vossemecê mesmo. Há-de reparar que ainda não fez a primeira coisa que qualquer um teria feito, que era perguntar-nos porque é que o prendemos aqui. Embatucou, não foi? Pois… Então, diga-me lá: porque raio lhe demos uma pancadinha na cabeça e o fechámos neste barracão? – O facalhão que o Barbosa trazia entalado no cinto pareceu exibir-se quando ele, cruzando a perna, apoiou a biqueira de uma das botas ao lado da outra, ao mesmo tempo que inclinava a cabeça para trás para a apoiar na parede e tirava do bolso o tabaco de mascar. O Chico limitou-se a marear as nódoas, desta vez em surdina.

– E então? O que é que acha? – insistiu o vareiro, cuspindo saliva enegrecida pelo tabaco, tomando por hesitação o breve silêncio do prisioneiro.

– Porque vocês são agentes da canalha republicana, prenderam-me e agora vão levar-me a tribunal militar – respondeu.

O Barbosa inclinava a cabeça para frente, abanava-a, curvava-se um pouco a denunciar o risinho silencioso, encarava-o, por fim com uma expressão sardónica. O Chico, encostado à ombreira, casquinava.

– Eu vi logo que daí só podia sair uma dessas… Mas para que é que haviam de querer levá-lo a tribunal militar? Merda monárquica a dar despesa no xilindró já a república tem que chegue. Para isso, tínhamos-lhe dado um tiro… Ai, essa cabecinha de alfinete…! Também o que é que se esperava de quem vem da moirama com três barris para ajudar ao real forrobodó que alguns malucos mai-lo russo arranjaram no Porto, como se um reino se aguentasse muito tempo a poder de vinhaça...? Para quanto tempo é que vossemecê acha que davam três barris? Para a cidade inteira…? Três dias…? Pode ser que saiba muita coisa, mas é fraquinho em contas. Ia ser bonito, se o levassem para o governo, ainda era pior do que muitos que por lá andam… Além disso, sai-me de Setúbal, todo lampeiro, num barquinho à vela carregado de moscatel e entrega-o, barril a barril, entre a Figueira e Arcozelo, a três de nós que andam por aqui na faina, o último dos quais fui eu, para o trazerem por terra até Gaia de maneira a não serem apanhados – pelo menos, todos eles – pela armada republicana? O que é que o levou a crer que o pessoal transportava o vinho cá para cima?

– Tinha um contacto na lota, um pescador que…

– … o Zé Rasteiro, que se fartou de falar mal da República à sorrelfa e lhe contou que havia muita gente, com vinho ou com armas, a fazer o que vossemecê fez depois, que ele era monárquico e que tinha amigos leais ao rei… Vossemecê foi na conversa, engoliu o isco com anzol e tudo, entusiasmou-se a pensar que ainda ia ser um herói e vir um dia naqueles livros de patranhas que lê, que sabia manobrar um barco, ele bichanou-lhe que podia arranjar-lhe um, pequeno, por bom preço, que nos avisava para descarregarmos a “pomada” e a passarmos para dentro do Porto, recebeu o dinheiro, pôs-lhe a embarcação no Portinho da Arrábida, vossemecê desenrascou-se a acarretar os barris até lá, ele até deve ter dado uma ajudinha para os disfarçar não encontrasse alguma patrulha costeira pelo caminho, disse-lhe que já tinha falado com a gente, explicou-lhe o caminho, como é que havia de saber que éramos nós que estávamos nos sítios combinados à sua espera… Entretanto, também se andou a informar sobre a sua família.

– Mas afinal quem são vocês? O que querem de mim?

– Olhe, meu fidalgo, nós somos pessoas que, de certeza, nunca aparecem nos seus calhamaços, somos gente sem importância nenhuma para as histórias que eles contam. Mas já o bisavô do meu bisavô fazia o que nós fazemos, acho que isto é mais antigo que o avô-torto do Afonso Henriques, que eu não sei quem era nem me interessa. – Riu-se. – Não somos nem pelo rei nem pela república, ‘tamos a cagar-nos neles todos. A monarquia nunca nos rendeu um pataco, isto sempre foi uma miséria, o pessoal a ir ao mar sem ganhar nada que se visse, os filhos a chorar com fome, em casa, a gente a deixá-los órfãos no meio das ondas em frente à praia por falta das obras que se devia fazer para melhorar os portos, mas que não se fizeram para o dinheiro encher os bolsos dos gulosos dos ministros e dos amigalhaços deles ou dos conselheiros e protegidos dos reis, gente que sempre olhou para nós de cima, uns porcos é o que eles são, escapa-se um ou outro… E os republicanos também não são melhores, todos à bulha a ver quem é que manda mais que o outro e o põe fora do governo, o país está uma miséria e eles a engordarem à conta do povo e de quem calha… pois diga-me lá o que é que aconteceu aos bens que eles tiraram à padralhada, que essa é outra corja, puta que os pariu a todos… – O Barbosa falava agora tão exaltado como o tio Artur. O rosto, porém, não se lhe transfigurava pela nobreza de carácter, antes se lhe distorcia numa máscara de furor animalesco, de rancor selvagem, a saliva a assomar-lhe aos cantos da boca, as veias do pescoço inchadas, os olhos a ressumar ódio.

– Oiça – continuou, recuperando o domínio de si – houve muitos vareiros e vilões que emigraram, foram para o Brasil, para a América, para o Canadá, melhorar a vida. Mas, entre aqueles que nunca saíram daqui em centenas e centenas de anos, criou-se uma irmandade: uns, que se meteram ao mar, a assaltarem navios; outros, que nem se deram a esse trabalho. Sabe, os pescadores, de Aveiro até Setúbal, acabam por ser uma família. Há gente a pescar na ria que tem parentes na foz do Tejo, em Sesimbra… – e não interessa que sejam primos afastados, ao fim somos todos da mesma parentela. Torna-se fácil passar informações entre a gente, sabemos quais são os navios a passar pela costa que nos interessam. À noite, acendemos fogueiras em terra para enganarmos os pilotos, eles pensam que é a luz do farol e vêm direitinhos às rochas; de manhã, é só recolher o que o mar trouxe à praia. Chamam a isto pirataria de terra. A gente chama-lhe “o que tem que ser”.

– Eu chamo-vos miseráveis, assassinos de inocentes – foi o que conseguiu articular.

 – Tenha cuidado com a língua que, por menos, já esta – apontou para a faca – a tirou a alguns. E vossemecê é dos que gosta de falar, por isso veja lá se fica sem um gosto na vida – ou sem vida, não vá esvair-se em sangue, que aqui não há quem o socorra… Ora assim é que é, gosto de os acalmar com umas palavrinhas na altura certa… Mas eu percebo-o… as pessoas, quando perdem o trambelho, são capazes de fazer e dizer os maiores disparates. Vossemecê ficou transtornado pelo que acontece aos desgraçados que não conhece; eu e os outros, que fazemos o que ouviu, ficamos transtornados pelos que conhecemos.

– Isso não vos desculpa em nada, assassínio é assassínio. – O Barbosa encolheu os ombros.

– Pode ser que sim. Mas olhe, uma coisa que a vida me ensinou é a não discutir, não vale a pena. Não é necessário muita conversa. Se querem que a gente pare, é simples: façam alguma coisa por nós. Não queremos nenhuma esmola, só que nos ajudem no que é preciso para podermos arranjar de comer e, com isso, o Portugalito também ganha, ou não é? Vão ver que, depois, a maioria há-de dizer que se arrepende para sempre do que fez – ou melhor, finge que se arrepende, é mais que certo… Mas de qualquer maneira já será tarde: para os que morreram, para os que mataram e para a cambada que permitiu que as coisas chegassem a este ponto – ou porque estava a roubar o dinheiro que havia de servir para as obras ou porque nunca se importou com a miséria em que vive o pessoal da pesca. O mundo é uma estupidez feita de filhos-de-puta, o que quer que eu lhe diga?

– Quero que me diga o que faço eu e os outros que vocês apanharam no meio dessa nojeira, que ainda não percebi. – Sentia-se cada vez mais desorientado.

– É só pensar um bocadinho, que até lhe faz bem. Como é que se pode afundar navios mercantes ou passar contrabando – que a gente também o passa… – se a armada republicana não nos larga a braguilha, a patrulhar a costa acima da Figueira da Foz? Lembrámo-nos disto e resultou, já caçámos uns dez tão aluados como vossemecê e fomos guardá-los em sítios que mais ninguém conhece para pedirmos uns dinheiritos à família. Daqui a pouco tempo, quando os republicanos derem cabo dos monárquicos. Houve aí um de vocês que se armou em esperto, e como não conseguíamos abrir-lhe a cabeça para lhe meter juízo, abrimos-lhe as goelas… Agora, até pode dar melhor os sermões dele aos peixes. Pois, é assim mesmo… E, repare nisto, aprenda com Nosso Senhor Jesus Cristo, que pregou que os bons serão os donos da Terra, mas que não é daquela em que a gente vive, é de uma outra – que esta, meu amigo… Por isso, se foi ele próprio a dizê-lo, o que é que a gente pode esperar?

– E se nos queixarmos à polícia quando nos soltarem? – balbuciou, atarantado.

– Oh santinho, só numa cabeça como a sua é que cabia a ideia de ir queixar-se à polícia republicana por o terem apanhado a querer ajudar o rei… Está a ver o que lhe acontecia… Ainda passávamos nós por patriotas… se calhar até nos davam medalhas e tudo… Mas é melhor não, que assim continuamos a passar nos intervalos da chuva sem ninguém nos chatear. Bem, mas o paleio já vai longo e temos muito que fazer. Fique-se com Deus, que é boa companhia para todos. Voltamos amanhã.

Quando, no outro dia, vieram trazer-lhe a comida e a água, nenhum dos raptores falou com ele. O Barbosa mostrava-se carrancudo e pouco disposto a conversas, talvez por achar que dissera qualquer coisa que não devia, o Chico limitou-se a assomar, sempre de pistola em punho. O silêncio manteve-se nas quatro semanas seguintes sem que, apesar disso, lhe apetecesse quebrá-lo. Aquela era gente infame, perversa até no modo como justificava os seus crimes. Tivesse ele uma arma, e abatia-os sem hesitação antes que matassem mais inocentes. Uma vez, porém, decidira-se a perguntar-lhes:

– E se vos acontecer alguma coisa? Morro aqui?

– Olhe, amigo, é a vida… reze… – respondera-lhe, seco, o vareiro.

A calcular pela luz que, na altura, entrava pelo buraco na telha-vã, o gato havia-o descoberto na madrugada do primeiro dia em que não vieram trazer-lhe a refeição. Este era o quarto em que ninguém aparecia e a noite aproximava-se, deviam ser umas quatro e meia da tarde porque ali dentro já se via mal. Cada vez mais debilitado pela fome e pela sede, a companhia do animal salvara-o de cair na loucura, serenando-lhe o espírito.

Por quanto tempo ainda? Não consegue calculá-lo. Nem sequer deseja fazer tal pergunta. 

 

Talvez 11

Aos seis anos, o príncipe Manuel não só falava como escrevia já em francês, língua que ela agora também falava e lia, depois de sua Alteza ter batido o real pé e feito uma real birra para que a ama pudesse assistir às suas aulas. Pudera, assim, ler um pequeno livro sobre filosofia no qual se tratava do que dissera um tal René Descartes, e o que lera ameaçara-lhe a partir daí, por muito tempo, o fragilíssimo equilíbrio mental conseguido durante anos em luta desesperada – nem sabia se consigo própria, pois que era isso o que se jogava e jogara sempre. Porque nunca mais o seu espírito cessara de enfrentar a hipótese haver sido um génio maligno quem nos criou para se divertir a ver-nos errar.

Ao contrário das opiniões dos entendidos no assunto, achava que não fora apenas para esgotar todas as dúvidas possíveis que o filósofo a pusera, e em último lugar. É que essa seria a situação mais aterradora que se poderia supor para a existência, a única realmente de vida ou de morte, por nos atar, para sempre e sem remédio, ao arbítrio de alguém que não nos ama. Talvez Descartes tivesse razão nos raciocínios com que logo a desfizera, não possuía saberes suficientes para os compreender por inteiro, mas suspeitava de que ela lhe ocorrera não tanto pelas nossas certezas mas porque a vida, indiferente ao que pensemos, parece comprazer-se, perversamente ou não, em continuar a levantá-la debaixo dos nossos passos.

Ouvira já bichanar, entre risinhos cúmplices abafados ou lágrimas e faces rubras de vergonha, quantas histórias de amas que iniciavam no amor carnal as crianças entregues aos seus cuidados… Sabia por si própria que elas eram, na realidade, as verdadeiras mães, quem lhes dava os mimos e os carinhos, e compreendia, por isso, que os rapazes pudessem chamar à ama “a sua namorada” sem a que a presença de um pai o contrariasse, como sucedia com aqueles que de quem as próprias mães cuidavam. Sabia que muitas se encontravam sozinhas ou que os seus casamentos estavam longe da felicidade, que a carne é fraca, que a sede de carinho leva – tantas vezes! – à miragem, a julgar achá-lo onde ele não se encontra, e que assim entremos por caminhos ínvios, geradores de um sofrimento e de uma degradação maiores do que o que nos levou a percorrê-los. Sabia que tudo isto era comum, demasiado comum, mas sabia também não ser isso o que vivia.

A relação indestrutível firmada entre ela e Manuel desde o primeiro instante, era entre almas. O desejo um do outro assentava no mais fundo de ambos, nada no corpo infantil lho despertaria. E entrelaçava-os cada vez mais, à medida que o espírito do príncipe – do seu príncipe – amadurecia e se revelava no homem – no seu homem – que ia aos poucos surgindo aos olhos de todos. Mas era esse homem que, de algures no tempo, também a fora chamando num crescente número de sonhos, em sonos perturbados pela inquietação que lhe agitava o corpo à míngua de carícias. A criança, o rapazinho, chegara aos treze anos em 15 de Novembro, a sua figura e o seu porte começavam a desenhar o adolescente, e ela sentia-se perdida como nunca estivera.

Visitara Teresa de Saldanha três semanas depois do aniversário de Manuel. A certa altura, fizera derivar a conversa para a questão do que aconteceria aos que tinham querido estar juntos em vida sem que as vicissitudes desta o permitissem. Teresa, certamente desconfiada de qualquer paixão escondida, lembrara-lhe uma passagem do Evangelho. Segundo a lei hebraica, o irmão de um falecido deverá casar com a viúva e tomá-la a seu cargo. Os saduceus, que diziam não haver ressurreição, perguntaram um dia a Jesus: «Mestre, se um homem que tenha sete irmãos morrer, morrendo em seguida aquele que tiver casado com a viúva, e assim sucessivamente até que todos hajam morrido, com qual deles ficará ela após a ressurreição?». Ao que Cristo lhes respondera: «Na ressurreição não se casam nem se dão em casamento, mas serão como os anjos no Céu. E quanto à ressurreição dos mortos não leram o que Deus disse: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob”? Porque não é Deus dos mortos, mas dos vivos.». Percebera – ou julgara perceber – o que Jesus afirmara sobre as almas, que elas virão a ser como os anjos após a ressurreição. Mas ainda hoje não conseguia entender o que Ele quisera dizer com aquilo de Deus não ser Deus dos mortos, mas dos vivos.

Foi logo a seguir a regressar ao palácio que D. Amélia a chamou para lhe comunicar a dispensa dos seus serviços a partir do início do ano seguinte, exactamente doze anos depois da data em que entrara. Sairia com uma carta de recomendação, assinada pelo punho da rainha de Portugal, na qual se realçaria a sua excepcional dedicação ao infante e o papel extraordinário que desempenhara na educação do príncipe. Seria também por mérito dela que D. Manuel detinha já a maturidade e a vastidão de conhecimentos que lhe permitiriam, no próximo ano, acompanhar a mãe e o primogénito, Luís Filipe, na viagem ao Egipto noticiada pela imprensa. Mas “o seu menino” entrara na adolescência e chegara a hora de cortar o cordão umbilical que, através da ama, o prendia à infância. Não queria com isso dizer D. Amélia que ficasse proibida de o ver, bem pelo contrário, visitas ocasionais afiguravam-se-lhe até bastante desejáveis. Contudo, para que o inestimável trabalho que iniciara pudesse ser completado, tornava-se imperioso deixar agora o palácio.

A confusão inominável em que lhe turbilhonara o espírito até à partida levara a que ainda hoje não se conseguisse recordar desses dias com clareza. O mesmo deveria ter acontecido ao príncipe que, informado do que a rainha decidira e consciente da inutilidade de qualquer oposição, se refugiou num silêncio insondável, quase agressivo. O dia nevoento e frio em que se despediram, num último passeio pela Pena, decidira a memória que a Eternidade guardaria dela. Naquela outra quarta-feira, 7 de Janeiro de 1903, num impulso que a cindia tanto como a unia, que lhe parecia vindo de fora de si própria embora ansiado por todas as suas vísceras, fizera de Manuel, aos treze anos, o homem que ele desejava ser. Deixou-o sentado na relva com o rosto escondido entre as mãos, correu ao quarto, pegou na única mala que preparara, saiu do palácio sem que ninguém a visse e caminhou não sabia nem por onde nem para onde nem se de dia nem se de noite.

Passados dezanove anos, esperava-o ali. Ela, a ama, a Madre, a amante do rei. E, pressentia-o, pela última vez. 

 

Talvez 12 

– Estais firmes na vossa decisão?

– Sim, matemo-la agora.

– E ele?

– Quem?

– O filho…

– Logo se verá. 

 

Talvez 13 

– Ora boa noite! Como está a D. Inês?

– Seja bem aparecido, o senhor D. Pedro…! Eu estou bem. E Vossa Excelência, como passa?

– Também estou bem, muito obrigado!

– Hmmm…! Pelo ar já vens “quentinho”…

– Desculpa lá…! Mas, estava a tasca quase a fechar, apareceu um sujeito que queria saber se havia por aqui algum sítio onde pudesse dormir, para amanhã seguir para Viana do Castelo. Depois, perguntou se ainda lhe podiam servir o jantar, o Adelino – já sabes como ele é… – não quis perder dinheiro e lá arranjou qualquer coisita. Acabou por me dar o que sobrou na frigideira, nem me levou nada, paguei o copo de vinho para acompanhar o petisco e fiquei a conversar com o homem, para não o deixar a comer ali sozinho. Quando acabou, viemo-nos embora, ele agradeceu-me a companhia e pronto, despedimo-nos. Por acaso, era uma pessoa simpática…

– Pelos vistos, mais simpático do que a tua mulher, que deixaste aqui com o jantar pronto…

– Podias ter jantado, escusavas de estar à minha espera, sabes que eu não gosto disso.

– Para a próxima janto, podes ter a certeza… Agora vou ter que aquecer tudo outra vez…

– Pronto… eu sei que tens razão… mas hoje é sexta-feira, amanhã não preciso de me levantar cedo para ir trabalhar… E nunca ouviste dizer que, às mulheres, homem que não bebe e não fuma cheira-lhes a coelho manso? Vá lá… Eu não fumo… beber, só qualquer coisita, nem é muito… mais à sexta, depois do trabalho… qualquer dia…

– Cantas bem, mas não me alegras. Sabes a quantos ainda estamos hoje? Ainda… daqui a bocado já não estamos...

– Hoje estamos a 6 de Janeiro…

– …dia de Reis, portanto amanhã será 7 de Janeiro de 1978…

– …e o catraio faz dezoito anos, pois é…! Esqueci-me! Tenho que lhe comprar uma prenda…

– … Pois… vossemecê é muito distraído… O que vale é que eu me adiantei.

– Ele está acordado?

– Está, está… Está deitado, a ler.

– Sempre a ler, sempre a ler… Aquela cabeça não pára de andar às voltas lá com aquelas coisas da História, da Física e não sei que mais... Deixa-me ir ter com ele que não o vi há bocado, quando cheguei a casa. Vai-me arranjando uma sopinha, que eu venho já.

Enquanto passava pelo corredor ia-se preparando para aquilo que sabia que aí vinha… certo como o destino. Apoiou-se no lado de fora da ombreira da porta e assomou a cabeça para dentro do quarto. Lá estava ele a olhar para o tecto, as mãos cruzadas por baixo da cabeça. O gato, como não podia deixar de ser, enroscado ao fundo da cama.

– Ora boa noite, sr. Artur! Então? Com a luz acesa a esta hora?

– Olá, pai! Estou aqui a ver se…

– Vá, toca a apagar a luz e a dormir, que é tarde.

– Estava a pensar numa coisa…

– Ui!

– Queres ouvir? Não demora nada… vais achar que é giro.

Ui! Ui!

– Eu…

– Entra e senta-te um bocadinho. São só uns minutos, enquanto a mãe te aquece o jantar.

Estava tramado!

Entrou. Sentou-se na borda do colchão.

– Diz, mas tem que ser rápido, senão ela deita-me fogo de vez.

– Ontem, um professor falou na aula de um assunto que te pode parecer estranho…

E ele, ainda por cima, com um copito, oh que porra!

– É assim: o mundo é um conjunto de fenómenos em que um provoca outro, esse por sua vez outro e por aí fora. Já sabias, falámos disso noutro aqui há tempos…

Perfeitamente…! Oh sorte…!

– Sim, sim…

– Se eu der um pontapé numa bola, o pontapé é a causa do deslocamento dela; e se ela, a seguir, bater noutra e a fizer rolar também, passa a ser ela a causa do movimento da segunda. O mundo, o Universo todo, é um encadeamento de fenómenos. Por isso, não podemos falar de fenómenos isolados, como está tudo ligado são uma data de fenómenos em conjunto a causar um efeito composto também por uma data deles. O pontapé é o efeito de um conjunto de fenómenos simultâneos – físicos, químicos – produzidos pelo meu corpo, e o deslocamento da bola também porque, somados ao meu pontapé, estão o atrito do solo, a força da gravidade, etc. Ou seja, só conseguimos estudar a relação de causa-efeito entre sistemas de fenómenos, uma vez que estão todos ligados.

Para o que estava guardado…! Mas não podia desiludi-lo. Mesmo não percebendo, dizia-lhe muitas vezes que sim, senão o rapaz sentia-se desacompanhado… Ainda podia perder-lhe o respeito, por achar que ele era burro. Adorava aquele filho, tinha um enorme orgulho naquela cabecinha, mas às vezes não era mole, não, como diziam nas telenovelas brasileiras. Pigarreou.

– Sim, e então?

– Mas nós, disse o professor, podemos estar a cometer um erro tão grande como aquele em que caímos durante milhares de anos, quando insistimos, por preguiça, na ideia de que era o Sol que andava à nossa volta, sem pormos também a hipótese de ser o contrário o que acontecia, que seríamos nós que estávamos a andar à roda, que o Sol está parado e que parece mover-se porque vamos a passar em frente dele.

Hmm… Esta parte tinha-a apanhado. Talvez conseguisse perceber o resto.

– Pois… E o que é que ele disse mais? 

 

Talvez 14             

O tilintar de algo a cair no chão. Um pequeno baque surdo.

– Quarta-Feira!

O gato voltou. Tal como Robinson Crusoé, deu ao seu novo amigo o nome do dia da semana em que o salvara. Só que o salvador, aqui, é o gato, a protegê-lo da loucura.

– Quarta-Feira, o que andas tu a fazer? Não é costume vires a esta hora… O que é isso que deixaste cair do tecto? Deixa lá ver… Até pode ser…

Um pequeno punhal! Um estilete! Como…

Ele…

…dá consigo ao pé da porta, a procurar abrir a fechadura com a arma sem o conseguir, depois a esforçar-se por escavar em redor dela para a retirar com uma energia que o surpreende pelo instante que perdeu a pensá-lo, já quase não há luz… não há luz… tacteia para saber de onde ir retirando a madeira, fere-se, grita, chupa o sangue dos dedos, a fechadura fica agora no centro de um pequeno buraco que o ânimo, de súbito outra vez intacto, vai aumentando aos poucos até ficar do tamanho da ira que agora já pode sair-lhe do peito, descomprimindo-lho, agora vão ver, vão ver, vão ver, vão ver, o buraco cada vez mais fundo, a fechadura abana, tenta forçar a porta, ainda não, só mais um bocadinho, torna a ferir os dedos, não faz mal, furou-a finalmente, sente-o, enfia o dedo, espeta-se-lhe uma farpa de madeira, tira-a com os dentes e chupa de novo o sangue, sente-lhe o gosto numa alegria selvagem, ri, escava mais, mais e mais, a fechadura dá de si, atira-se contra a porta, uma vez, duas vezes, fica agarrado ao ombro por momentos, dói-lhe, ri, selvagem, bate-lhe com o pé com toda a força de que é capaz, a porta range, mais uma patada, outra, outra, outra, vão ver, porcos, porcos, assassinos, a nobreza há-de dar cabo de vós, não chega, escava mais, mais, mais, mais um pontapé…

Eu! Sebastião!

Saí!

…saí, saí, saí, saí, saí, saí, ar, ar, ar, ar, névoa, que horas serão, quanto tempo terei demorado, impossível sabê-lo, para onde devo ir, e por onde, cabeça fria, o que é aquele vulto ali à frente, é aquele armazém que vi a pouca distância deste quando aquela gente, nem isso!, me trouxe para aqui, ficava a norte, para ali é o norte, mas é melhor ir pela praia, não conheço os caminhos, a praia fica para Oeste, para aquele lado, portanto, apura o ouvido, vê se ouves barulho de ondas, parece, sim, vamos por este lado, cuidado, o carreiro é mau, talvez haja gente a rondar, é preciso ter cuidado, estar atento a alguma coisa que se mexa, alguma coisa que se oiça, cuidado, não torças um pé, o barulho das ondas está a ficar mais forte, uma descida, deve ir até à praia, só pode ser, devagar não te apareça um buraco de repente, porcos, assassinos, deve ser um local solitário, pois, para te trazerem para aqui, parece areia, é areia, estarei já à beira da praia, agora é já só areia e pelo barulho o mar tem que estar ali ao fundo, é melhor não me aproximar muito da água não venha alguma onda grande e me arraste, não conheço o mar aqui, é melhor tirar as botas, vou deixá-las entre esta pedra e este arbusto, assim hei-de dar com elas quando sair disto, canalhas, ora agora para este lado, devo estar a ir em direcção à foz do Douro, tenho fome, sinto-me fraco, mesmo assim é melhor correr, a ver se lá chego antes de clarear não vá alguém ver-me e depois subo pela margem do rio, até Gaia, corro, corro mais…

…corri, estou cansado, quantos quilómetros terei avançado, se calhar nem um, com esta fraqueza canso-me depressa, como estarão eles, os meus tios, os meus tios, pobres tios, pára, Pára! o que é aquilo, o nevoeiro não me deixa ver bem mas parece-me uma cruz, uma igreja? à beira-mar? sim é uma igreja, estranha, feita, parece, em hexágono, afinal vou parar um bocadinho, ali ao canto ninguém me pode ver nesta escuridão e com este nevoeiro, está muito frio não te podes demorar muito, senão ficas mesmo sem forças para prosseguires...

dormi

estou gelado

vem aí alguém

tenho o estilete

cercam a igreja!

virão buscar-me

tenho o estilete

quem são eles

há um que sobe

tenho o estilete

tenho o estilete

mas foi para o outro lado

fica quieto!

fica à escuta!

 

Talvez 15 

Que horas serão?

Não virá?

Ter-lhe-á acontecido alguma coisa?

Frio!

Frio! Como se o nada gelado entre as estrelas houvesse transmigrado para dentro de si. Como se o Sol se tivesse apagado para sempre e a esperança maior seja a de que o fim chegue depressa. Um fim rápido, incisivo, seco, que a leve de um mundo em que a própria casa da irmã, que tanto a ama e a quem ela ama tanto, se lhe tornou insuportável.

Frio! Todo o frio que procurou iludir durante doze anos, o destino gélido, inumano, que a condenou a não poder partilhar com ele o existir, mesmo que a deixassem viver o resto da vida ao seu lado. Talvez Deus compreenda tudo aquilo, ela não.

Frio, frio, frio! Como é possível tanto frio? Como foi possível transmutar-se o maior amor na maior pena? Porque só a mais profunda união de almas poderia ter conseguido que ela esteja agora grávida, só o homem que habita já dentro dele poderia ter operado tal prodígio aos treze anos! Grávida! Grávida, quente, frio, frio! Porque não há qualquer esperança, para quem aí vier, de saber em que circunstâncias foi concebido sem delas sentir vergonha.

Teresa, ajuda-me! Explica-me a Vontade oculta por detrás disto! Não me perguntes nada, sei que não me perguntarás nada, abre a minha vida à Vida que celebras na tua! Sim, Teresa, irei contigo, estarei ao teu lado, aqui e quando Ele nos confrontar com o que fizemos e fizermos e implorarmos a Sua misericórdia.

Deixo-vos o meu filho obscuro. Dai-lhe o nome do rei mais jovem que Portugal teve. Sebastião. Dizei-lhe que a sua mãe morreu, fazei dele a história do seu outro irmão. Deus vos abençoe por tudo.

Que a sua mãe morreu. Sebastião.

Que a sua mãe morreu.

Morreu.

Está viva apenas como quem perpassa pela vida. Luta para que haja sorrisos nos rostos encardidos pela miséria, humilhados pelo abandono, ferozes por vezes, acicatados pela cupidez. Vive da vida dos outros, do porvir dos outros que não é seu, que nunca poderia ser seu. Assim se protege do frio até que a sua hora chegue.

Frio! O sofrimento dele, o pranto dele, sem que ela esteja lá, sem que possa acarinhá-lo e consolá-lo naquele Fevereiro assassino. Frio! Frio! Mas depois está com ele, reconhece-se ao seu lado em cada gesto do homem, do agora rei que conhece e ajudou a desvelar.

Não, não lhe importa a Gaby Deslys (1) que trouxe de França, com que enche de vida a sua cama no palácio. Mesmo que a morrer de novo de uma mágoa fria, fria, fria como o ciúme. Vive, no desejo de que ele viva. E de que possa esquecê-la.

Morte!! Sente-se morrer na quarta-feira maldita que é 5 de Outubro de 1910. De inquietação, de separação, de um exílio cada vez mais definitivo. Mas Teresa não morre, Teresa vive de outra vida, nem sequer perpassou por esta, não é como ela, um anjo que procura reerguer-se, um anjo a que ainda chamam irmã Mariana. Ignora os que a maltratam, que a querem destruir. Não percebem que não a atingem, que apenas atingem aqueles a quem sempre desprezaram e continuam a desprezar, a miséria rilha os dentes como dantes. Mas Teresa entra em coma noutro 7 de Janeiro, o de 1916, morre no dia seguinte. E ela, irmã Mariana, não a chora. Vive cada vez mais como quem perpassa.

Voltará como rei? Chegou ao Porto? Resistem, eles resistem. Há quase um ano.

Frio? Frio? O rei enviou um convite para que a Ordem volte ao Corpus Christi de Gaia! Saberá que…? E ela, o que sabe de si própria? Treme, treme de frio.

Treme de frio ao chegar ao Convento. Que nenhuma das companheiras veja tremer a Madre que o Conselho da Ordem, desde há dez anos clandestina, nomeou. Que ninguém possa suspeitar. Mesmo que D. Manuel envie de imediato um mensageiro, marcando um encontro com Madre Mariana de Jesus para o dia seguinte, quarta-feira, 7 de Janeiro de 1920. Num lugar isolado, a igreja do Senhor da Pedra, em Gulpilhares.

Treme de frio, treme de frio, treme de frio, treme de frio no interior do templo, apoia-se no altar, Cristo protegê-la-á. E é agora Cristo que – como na Idade Média, em que o casamento se sagrava na própria igreja, por vezes mesmo testemunhado por todos – testemunha desta vez Ele próprio a segunda união carnal, sacralizada nos primórdios intemporais do Mundo e destinada à Eternidade, entre Mariana e Manuel, vivos deste mundo. Ali, no chão da igreja do Senhor da Pedra, em frente ao altar, soa o cântico gemido do amor, abre-se a cúpula do Universo para que os anjos se enlevem com ele. Que não separe o homem o que Deus juntou!

Frio! Porque o repele o homem. Porque condena à escuridão o que Deus quis que estivesse em plena luz.

Frio! Porque o mal que destruiu Teresa se acirra contra ambos, sufoca-os, quer voltar a expulsar o seu Manuel da Pátria.

E finalmente, um mês atrás, um frio de morte, trazido por ele, por ele!, como se houvesse sido obrigado a capitular sem o saber. O frio da maldição que espreita, sarcástica, numa decisão que apenas a Deus poderia caber, mas que lhe entregara a ela, como se a tentação fosse uma prova – mas de quê? para quê? – ou como se, afinal, não houvesse Deus nenhum, mas apenas um ser malévolo que se divertisse a destruí-la.

“– Mariana, precisamos de todo o vinho que ainda haja para continuarmos a resistir. Por favor, entrega-nos aquele que está destinado à celebração da Santa Missa. Não é só da monarquia que se trata, é também do futuro da Igreja em Portugal. Eu sei, eu sei… Mas recorda-te do que Cristo disse aos que o criticaram por curar ao sábado, que a lei foi feita para o homem e não o homem para a lei. E que lembrou o exemplo de David, que deu a comer aos seus soldados os pães sagrados da proposição quando nada mais havia com que pudessem alimentar-se.”.

Frio ou premonição?

Cedera.

Frio.

Ouve. Um automóvel. Bater de portas. Vozes. Vozes de comando. Passos.

Frio.

Frio.

 

 

(1) Gaby Deslys (4 de Novembro de 1881 – 11 de Fevereiro de 1920) foi uma famosa actriz do começo do século XX. Dizia ter nascido em Marselha com o nome de Marie-Elise Gabrielle Caire, mas a possibilidade de ser de origem checa alimentou um conjunto de especulações que perdurou muito para lá do seu falecimento, aos 38 anos, em Paris, na sequência da gripe espanhola que contraiu. Doou aos pobres de Marselha a enormíssima fortuna acumulada, inclusive a casa, que foi entregue a uma instituição de caridade. A cama de talha dourada em que dormia, com a forma de um grande cisne, foi comprada e usada pela Universal Studios em vários filmes, como, por exemplo, n’O Fantasma da Ópera.

Gaby Deslys e D. Manuel II conheceram-se numa deslocação do rei a Paris, em 1909, e a sua ligação manteve-se após a saída deste do trono. O relacionamento, largamente noticiado nas primeiras páginas da imprensa mundial, passou quase despercebida à portuguesa, com excepção dos jornais republicanos que atacaram e desprestigiaram D. Manuel, referindo-se a Gaby como a prostituta residente no Palácio das Necessidades com quem o rei desbaratava o dinheiro do país. Gaby Deslys nunca especulou sobre essa relação, muito embora não a negasse. A ida da actriz para os palcos de Nova York, em 1911, arrefeceu a relação, mas apesar do envolvimento com o seu colega de palco, continuou a visitar Manuel, que passara a residir em Londres.

 

 

Talvez 16

– Ei-la.

– Avancemos.

 

Talvez 17

– Bem, há outra coisa ainda. Para estudarmos o que quer que seja, temos que supor que isso que pretendemos estudar é uma unidade, quer dizer, que as suas partes interagem em bloco umas com as outras, à parte de tudo o resto. Tu formas uma unidade porque as tuas partes se unem para o mesmo fim, que é a tua sobrevivência – e vice-versa, porque o teu fígado, os teus pulmões, nenhuma das tuas células sobreviveria sem ti. Se tu existes porque elas existem, elas também só existem porque tu existes.

– Hmm…

– Mas, se reparares, nem tu nem ninguém nem nada é uma unidade, porque todos estamos dependentes de todos, tudo está dependente de tudo. Tu, a tua unidade, faz parte da unidade da cadeia alimentar, por exemplo, que, por sua vez faz parte da unidade do planeta Terra, que por sua vez faz parte… do Uni-verso, que é a unidade final suposta e, portanto, a meta do conhecimento humano

– Sss…sim…

– Acho que havia um filósofo qualquer, Hegel, salvo erro, que dizia que só há um conhecimento verdadeiro: o do Todo. E está certo, porque apenas se pode compreender quais e como se ligam os elementos de um conjunto quando conhecermos o que é o conjunto. Antes de o sabermos, tanto podemos estar certos como errados. É o que se chama “a pescadinha de rabo na boca”. Não nos resta mais nada senão andar a tactear.

– E então…?

– Olha, é como fazer um puzzle sem termos a gravura: começamos a juntar peças que nos parecem formar um animal, mas, afinal, as que sobram não encaixam; depois, parece-nos que, com estas e as anteriores, formam um outro, que pode até não ter nada a ver com o primeiro; a seguir, vemos que também não dá com este modelo; para cúmulo, descobrimos que havia peças que não víramos debaixo da mesa e chegamos à conclusão de que haverá muitas ainda, espalhadas sabe-se lá por onde…

Aguenta!

– Ora bem, agora é que vem o problema, segundo o professor…

Agora…!

– Diz.

– É que nós, além de termos capacidades limitadas de conhecimento, tendemos, como já disse, a seguir o caminho que dá menos trabalho. Olhamos para o que à primeira vista tomamos como um sistema individual e consideramos que é esse sistema que se relaciona com os outros sistemas semelhantes, formando o sistema geral. Mas, se nós não conhecemos a totalidade, como podemos ter a certeza de que é assim? Quem nos diz que, no conjunto de sistemas que forma o sistema comum, as coisas não estão assim tão à vista e que é isso que origina os nossos erros no conhecimento dessa totalidade?

– Hmm…

– Vou dar-te mais um exemplo. A nossa medicina fala de sistemas dentro do sistema geral que é o corpo humano, mediante a existência de grupos de órgãos que executam determinadas funções e não outras: o sistema digestivo, o sistema respiratório, etc.. Os sistemas não se relacionam, a não ser que o mau funcionamento de um se reflicta noutro ou em todos eles: os órgãos do sistema digestivo não têm funções respiratórias e vice-versa, mas uma anomalia num poderá ter consequências noutro ou noutros ou em todos. Mas, na medicina tradicional chinesa, as coisas não são vistas desse modo, consideram-se como estando num mesmo sistema órgãos com diferentes funções – e o certo é que curam doenças utilizando essa perspectiva porque, para eles, o que interessa é a energia, que é a base da existência seja do que for – pensamos nós… O que quero eu dizer com isto – eu, não, o professor? Que, quando se trata de estudar o Universo, eu não sei se o sistema a estudar será constituído por subsistemas aparentemente óbvios ou se pela relação entre partes dos diferentes – por nós supostos – subsistemas. Assim a brincar: eu não sei se as minhas acções, que julgo serem produto do meu eu que considero ser um subsistema, não são afinal as acções de um subsistema Artur-Sebastião, isto é, que não existe nenhum subsistema Artur nem nenhum subsistema Sebastião. Ou até, quem sabe, que o subsistema a considerar é o que existe entre o meu olho esquerdo e pata direita dele. Percebeste?

O que poderia dizer-lhe?

– Mais ou menos… Só sei que tu e o gato formam cá uma parelha desde que ele apareceu, perdido… – Riu-se. – Mas vá, amanhã, explicas-me melhor. Agora…

– Espera, ainda não te falei daquilo em que eu estava a pensar, só da aula.

Sentia-se cansado depois do dia de trabalho, e ele ali, fresquinho que nem uma alface…! Quando é que o raio da mulher o chamava, para ir comer a sopa e dormir? Embora, no fundo, estivesse fascinado pela esperteza e pelo entusiasmo do rapaz… Quer dizer, ele não estava a perceber quase nada, mas aquilo… parecia-lhe bem.

– Então diz lá! Mas agora tem mesmo que ser rápido, preciso de ir deitar-me.

– Levo dois minutos. Alguma vez ouviste falar do gato de Schrödinger?

– Não, no prédio todo só nós é que temos gato… Estou a brincar, acaba lá!

– Foi uma coisa que o Schrödinger disse e de que o Einstein também falou, coisas de física quântica.

Pschh… Física não sei quê… Canja…! E a Inês, nem pio!

– Tem a ver com o que eu disse há bocado. Assim, muito esquemático: não há possibilidade de saber tudo o que se passou no Universo até chegarmos ao momento em que nos encontramos. O que virá a seguir poderá depender de algo que desconhecemos totalmente, do efeito do movimento de uma simples partícula subatómica. Se tivermos uma caixa lacrada com um gato lá dentro, dizia o Schrödinger, quando a abrirmos ele poderá morrer ou continuar vivo mediante o jogo de partículas que estiver a decorrer. Só conseguiremos sabê-lo, porém, se a abrirmos – ou seja, nunca saberemos antecipadamente o que acontecerá porque não possuímos o conhecimento total do que aconteceu até hoje no Universo. E o que nos parece mais estranho, além disso, é sermos obrigados a concluir – se continuarmos a pensar nesta linha, mas agora não te vou massacrar com isso… – que no sistema geral, num determinado momento, o gato estará vivo e morto ao mesmo tempo.

Han?! Acho que… estes gajos são todos malucos! E…

– E agora digo eu o que estava a pensar antes de tu chegares: no que toca à História, à explicação e à previsão de acontecimentos e também às viagens no tempo e tudo isso, a coisa ainda se torna mais complicada do que o que se diz. Não é só por as acções humanas serem grandemente imprevisíveis e não sabermos qual será a unidade final para que a História caminha, nem porque não temos o conhecimento de tudo o que se passou até agora, mas porque os sistemas que criamos para encontrar relações de causa-efeito entre os factos – aquilo que estabelecemos como factos – são ainda mais arbitrários do que em Física.

Pois… Ora pois… Finge que percebes, Pedro.

 – Poderá haver cadeias de causa-efeito entre acontecimentos que consideramos irrelevantes, como seria o caso da ligação momentânea entre o piscar meu olho esquerdo e o movimento da pata do Sebastião, ou outros simples pormenores, que desconhecemos nem poderemos vir a conhecer, a gerarem efeitos que não imaginamos. Ou mesmo com os meses, os dias, as horas, os minutos, a configuração astral do momento… Talvez na astrologia também haja coisas desse tipo, incompletas como as outras, mas com que os astrólogos até acertam de vez em quando…

Inês, Inês…! Onde te meteste tu, mulher…?!

– E agora imagina a complicação que vem aí quando começamos a pensar em estabelecer metas em viagens ao passado e ao futuro, gatos mortos, gatos vivos… que período ou momento anterior é que se liga, de facto, a outro, actual ou não… Se é que alguma vez as conseguiremos fazer… Isto supondo…

– Pedro, a sopa está quente!

Aaah! O que teria ela andado a fazer, para demorar tanto?!

– Agora vou comer a sopa. Amanhã falas-me do resto.

Mas não podia ir-se embora sem dar um ar da sua graça, senão o que é que o rapaz havia de pensar do pai que tinha?

– Olha, filho… eu entendo pouco disso de que me estiveste a falar. E – saiu-lhe uma gargalhadinha bem-disposta – não sei se o Sebastião teve a ver com o 25 de Abril, que ele apareceu aqui, vindo sabe-se lá de onde, do nevoeiro que fazia na quarta-feira, 24, ao fim da noite, … o 25 de Abril foi numa quinta. Mas digo-te, se não fosse aquele gato assanhar-se e atirar-se aos olhos do teu bisavô no dia 7 de Janeiro de 1903, parece que também era uma quarta-feira, dizia a tua avó Maria que tinha boa memória para essas coisas, a nossa vida hoje não era a mesma. De certezinha. Assim, com o pai cego, sem poder trabalhar, o teu avô António, aos catorze anos, foi obrigado a desenrascar-se para ajudar ao sustento da família e nunca mais pôde pensar na universidade. Depois casou-se, nasci eu, depois o teu tio… Mas com a cabeça dele, hás-de lembrar-te, já tinhas dez anos quando morreu, chegava a primeiro-ministro. Ai, aposto que chegava! E tivesse ele ido para o governo que este país nunca haveria de precisar do 25 de Abril, isso te garanto – malandro fascista do Rolão Preto (1) mais dos seus Camisas Azuis! Podes crer! Um grande homem, mesmo nunca o tendo sido, o teu avô, o António de Oliveira Salazar.

 


(1) Francisco de Barcelos Rolão Preto (12 de Fevereiro 1893 – 18 de Dezembro de 1977), foi um dos fundadores do Integralismo Lusitano e líder dos Nacionais-Sindicalistas (Camisas Azuis), movimento proibido por Salazar, em 1934, por imitar o fascismo italiano. Exilado, o seu pensamento evolui para concepções democráticas, colabora na campanha presidencial de Humberto Delgado e, após o 25 de Abril de 1974, preside ao PPM. É condecorado por Mário Soares, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

Existem outras histórias, porém, talvez mais credíveis, segundo as quais Rolão Preto teria chefiado um golpe de Estado que depôs o general Gomes da Costa em 25 de Novembro de 1926, assumindo depois um papel semelhante ao de Franco, em Espanha. Foi deposto pelo MFA em 25 de Abril de 1974 e exilou-se no Chile, onde faleceu três anos depois.

 

Talvez 18

– Lembrar-se-á Afonso de que faz nesta quarta-feira, 7 de Janeiro de 1355, trinta anos que subiu ao trono?

– É verdade, seu pai, El-Rei Dinis, morreu a 7 de Janeiro de 1325.

– Julgais que será um mau presságio, que virá a pender no futuro alguma maldição sobre a Casa Real pelo que fizemos, matando a galega?

– Não, ela era um perigo para o reino, a aleivosa.

– Alguém nos terá visto, além dos filhos?

– Não, nem o gato dela deu por nada. Ao sairmos, brincava ele no jardim, arrastando o estilete com que Inês intentava ferir Pêro Coelho para debaixo de um arbusto. Deixei de o ver depois.

– Se ela de tal modo enfeitiçou Pedro, não me espantaria que fizesse outros bruxedos. Deveríamos, talvez, ter morto também o gato.

– Os gatos das bruxas, todos o sabem, são negros. Aquele tinha o pelo claro. Não temais, amigos. Nenhum mal virá nem para a Coroa nem para nós. Pedro curar-se-á desta paixão funesta e, quando cair em si, sei que ainda nos agradecerá. Seu avô é que jamais nos perdoaria. Porque, para Dinis, quanto mais valia o amor que qualquer reino! 

 

Talvez 19

– Ó Zé! Zé, chega-t’ aqui! O qu’é qu’aconteceu? O rei desceu do aut’móvel amparad’ p’lo c’mandante, que vinha c’ um ar aflito, entrou tod’ curvado… vocês atrás, com cara de caso… tud’ caladinho… o Matias, mais encaralhado qu’eu sei lá… o qu’é qu’houve?

– O qu’é qu’houve…? Uma ganda merda, foi o que foi…

– ‘Tão…?

– Sabes qu’a gente fomos escoltar o rei até ó Schor da Pedra, p’ra ele ir encontrar-se c’a Madre que foi ama del’ ó não sei quê…

– Cá p’ra mim, iss’ traz água no bic’. Tu achas qu’o rei e a velha…

– Schhh…! Olha qu’aqui ‘té os corvos dão ao badalo, carago! ‘Inda arranjas um trinta e um…

– …

– ‘Tão foi assim: a gente chegámos lá eram q’ase cinco da manhã, porqu’ havia coisas p’r’ó rei resolver antes, d’pois ach’ qu’ el’ teve ‘ma d’scussão c’ àmaricana e não sei quê… A coitada da m’lher parece que ‘tava à ‘spera dele há que séc’los, desde o fim da tarde d’ontem, ouvi d’zer. Bom, havia ‘ma névoa do catano ao pé d’ mar, aquilo fica ali no r’chedo à borda d’água. O c’mandante mandou montar guard’ à volta da igreja e o rei s’biu. Voltou eram p’r’aí umas sete, junto c’a freira, e q’and’ tinham descido, já ‘tavam no patamar cá de baixo, a despedirem-se, sai-nos um gajo, ninguém sab’ donde, d’reito a eles, de braços no ar, c’um p’nhal pequen’ na mão, a gritar q’alquer coisa, rei, rei… A m’lher dá um grito, o c’mandante corre, mas ela é mais rápida, atira-s’ ó homem, o cabrão continu’ ós berros sem se perceber nada, o rei mete-se, enrolam-se os três, e o mânfio fica-se ali porqu’ a freira agarrou-lh’ o pulso e, naquela conf’são, o p’nhal virou-se p’r’ó lad’ dele e enterrou-se-lhe no peito. A gente ‘tava d’armas aperradas, mas pouc’ conseguia ver p’r causa d’ nevoeiro e ficámos com medo de d’sparar, o c’mandante nem tinha tido tempo p’ra fazer nada, qu’aquil’ passou-se tud’ muit’ depressa… ‘Tão na’ é qu’ vem um gato a c’rrer – ouve bem, um gato! – e bate nas pernas do Matias?! El’ ‘tav’ à toa, c’o susto carrega no gatilho e sem qu’rer dá cabo da Madre. Pum! Mem’ na cabeça…! O rei desmaiou q’and’ percebeu qu’ela tinha m’rrido, o c’mandante meteu-o no carro a mais o corpo, passámos p’lo mosteiro p’r’á deixar lá, as freiras tud’ a chorar… E pront’… O gajo ficou estendido à frente das escadas, daqui a bocado manda-se uma patrulha p’r’ó ir b’scar, pod’ ser qu’alguém saiba quem el’ era…

– Hiii… O Matias ‘tá f’dido…

– Um gato, vê tu!, um gato… vindo do nada…

 

Talvez 20 

– Alto! Quem vem lá?

– Schhh, cala-te! Somos nós, o cabo Sousa e o cabo Semedo.

– Desculpe, não os tinha reconhecido.

– ‘Tás de atalaia, cumpres o teu dever. Sabes do cabo Valente?

– Julgo que ‘teja por ali, do outro lado daquelas tendas. Quer que mande alguém chamá-lo?

– Não, a gente vai à procura dele.

Os dois militares enterram as botas quase até ao cano a cada passo dado no imenso lamaçal em que tudo se tornou após a chuvada da noite anterior. É meio-dia e, devido ao nevoeiro cerrado que caiu pela madrugada, às nove a prudência dos oficiais decidiu suspender o avanço das tropas e estacionar temporariamente naquele ponto, não vá o inimigo, mais conhecedor do terreno, aproveitar-se da vantagem para fazer um ataque de surpresa. A informação sobre a localização das colunas monárquicas é escassa, há que reforçar as precauções e a vigilância.

O sítio escolhido, junto à costa, entre dois armazéns agrícolas abandonados e a ameaçarem ruína, torna-se ideal tanto para a defesa da posição como para um contra-ataque eficaz a partir da armadilha que montaram. As tendas foram armadas e colocadas entre os edifícios, mas apenas um terço dos soldados se encontra nelas. Os restantes dividem-se por igual entre os armazéns, mais abrigados da névoa e do frio paralisante, prontos a apanhar o inimigo pelas costas. Os sargentos receberam ordens para que estes evitem o mais possível o ruído e para que todas as conversas decorram em surdina. Sentinelas espreitam como podem do alto dos telhados, procurando abarcar o mais longe que a escuridão da névoa lhes permita, postam-se nas esquinas, vigiam cada uma das frentes do acampamento semivazio.

A cabeça do cabo Valente vira-se ao ouvir o chapinhar que se aproxima no meio da imobilidade quase total em que os homens, enregelados, se mantêm no interior das tendas. Um vulto emerge a pouca distância. É o Sousa, direito a ele, enrolado no capote a escorrer água, sorrindo de orelha a orelha, com ar de quem a pregou.

– Sousa, onde é que ‘tavas metido? E o Semedo? Olha que o sargento Lopes andou à vossa procura...

– ‘Tá calado! Anda cá! O Semedo já aparece… Não vêm magalas para esta tenda, pois não? Vá, entra!

– …?

– Entra, digo-te eu. Pronto! Agora, vê bem o que tenho aqui… E faz favor de falar baixinho enquanto eu faço um lumezito com estes bocadinhos de madeira que encontrei dentro do armazém maior… parece que andou lá alguém a escavar em volta da fechadura, para a tirar.

– Mas onde foste tu buscar essa garrafa, homem?! O que é que está lá dentro? Vinho?

– E aqui tens o Semedo… Trouxeste tudo?

– Tudo. Duas cebolas, alhos, azeite, louro, o tacho, a colher de pau… mais o que a gente sabe, lavadinho com água do mar… nem é preciso sal. Debaixo deste capote abençoado cabe o que se quer. O vagomestre não deu por nada, senão tínhamos que dividir com ele.

– Oh moços, o que é que vocês tramaram? O que trazes tu aí, Semedo? Não me digas que é um corvo, a carne desses bichos não se pode comer, é fibrosa, rija como cornos.

– Não, não é corvo nenhum… Sousa, isso é que é despachanço, trataste do lume e já estás de roda dos alhos…

– Vocês descasquem-me as cebolas… toca a aviar, não levante o nevoeiro e haja ordem de marcha.

– Mas, entretanto, digam-me lá o que é que vos aconteceu.

– Foi assim: depois de isto estar tudo orientado, a gente decidiu desenfiar-se sem dar cavaco a ninguém e ir espreitar mais acima. Avançámos devagarinho junto à praia, e fomos dar a uma igreja esquisita que fica aqui a quilómetro e meio, dois quilómetros… É uma que fizeram em cima de um rochedo – vá, tudo para dentro do tacho, o azeite, dá cá a colher de pau… – à beira da água. Não me lembro de alguma vez ter visto uma igreja num sítio daqueles, deve fartar-se de levar com o mar em cima, mas mantém-se ali bem conservada não sei como. Nem me lembro também de nenhuma com seis lados, como aquela. Para o caso de estarem lá os cabrões dos monárquicos a fazerem-nos uma espera, demos a volta por dentro de água… ainda molhámos um bocado as calças. Não estavam, mas passou-se qualquer coisa por aquelas bandas porque, no patamar da frente, encontrámos um gajo morto, com um punhal pequeno espetado no coração. Subimos a escadaria – já chia, já chia, já se sente o cheirinho, fechem mais a tenda senão corre para aqui o regimento todo… tudo não, senão sufocamos com o fumo – e passámos a parte de fora a pente fino. Nem viv’alma. Vínhamo-nos embora, íamos a descer as escadas, diz assim o Semedo: “E se houver lá dentro alguma coisa que nos dê jeito?”. “Vamos a isso”, respondi eu. A porta estava fechada, mas tantos pontapés lhe demos – deixa cá mexer um bocadinho… – que acabou por abrir. Entrámos, aquilo é pequenino, só dourados, andámos a espreitar e o que é que descobrimos? A garrafinha do vinho da missa. Vinho do bom, que os sacanas dos padrecas tratam-se bem. E se é vinho abençoado, ainda melhor, que a gente bem precisa – mais umas voltinhas, para não pegar… – de um milagre para se ir aguentando nesta puta desta vida. Vá, refogado pronto, vem o bicho, partidinho, embrulhadinho numas folhinhas da Bíblia que estavam ao lado da garrafa. Tudo santificado, não há pecado que nos entre depois... Ora bem, tacho com ele…

– Mas, afinal de contas, o que é que trouxeram para comermos? Contem-me lá o resto da história, sempre quero ver o que sai daí.

– Espera aí, que – agora deita-se o vinho… mais ou menos dois copos… o resto fica para acompanhar o petisco… – já ouves o que veio a seguir. Quando voltamos a sair, o que é que a gente apanha pela frente? Um gato, um gato em cima do peito do tipo estendido no patamar. Aquilo meteu nojo ali ao Semedo…

– Pois meteu, não sei porquê… pronto, meteu. Se calhar era o dono dele… Mas sabe-se lá o que ele lhe faria quando a gente se fosse embora? Enxotei-o. E não é que o bicho se assanha e me trepa pelas pernas, até as partes me arranhou…?! Eu grito, o diabo larga-me e corre para dentro da igreja, passou-me uma coisa pela vista, vou atrás dele, ponho a espingarda à cara, taaaruz! O tiro dentro da igreja… até o Cristo quis despregar as mãos para tapar os ouvidos, com o cagaçal.

– Fugimos logo, não tivesse alguém ouvido o estrondo. Corremos uns duzentos metros, não se via nem se ouvia ninguém, abrandamos, e digo eu ao Semedo: “Lá na minha terra, o dono da tasca onde costumo parar faz um coelho que nem parece que é gato…”. E responde-me ele assim: “Hoh…! Na minha, o pessoal farta-se de lhes dar destino. É cá um petisco que manda ventarolas… Os donos são capazes de desconfiar de quem seja, mas como não podem provar nada… E queres ouvir esta?... Uma vez apanhámos o de um tipo que alinhava com a gente de longe a longe, e fomos convidá-lo para o comer.”. “Não acredito…! Disseram-lhe de quem era o gato…?!”. E o Semedo: “Nessa altura, já ele tinha feito marchar uma perna!”. “E o homem…?”, perguntei. E este macaco: “Começa a barafustar com a malta, mas a certa altura pára e resmunga: Seus filhos de um cabaz de cornos! Já que fui eu que o criei, não comem nem mais um bocadinho, quem o come todo sou eu!”. Começamos os dois a rir, eu paro e digo-lhe: “E aquele, vamos deixá-lo ali?”. Voltámos a correr a ir buscá-lo, fomos à praia esfolá-lo e lavá-lo… pronto! sempre ajuda a variar da merda que se come na tropa. E da larica que a gente anda a passar desde há uma semana, que até a merda é pouca. Ou não queres comê-lo…? Valente, nunca comeste gato?

– Bem, na minha terra também houve quem me convidasse, mas eu, por acaso, não…

– Então chegou a altura de experimentares. Cheira bem ou não cheira, confessa lá, hmm…? Gato ou coelho, a diferença é nenhuma, acredita em mim. E temos que convidar o Garção. Mas só lhe contamos o que era daqui a uns dias. Onde é que ele pára, sabes?

– Há bocadinho, estava metido numa tenda, a terceira do lado esquerdo desta, onde estamos. Sozinho.

– Sozinho? Isso faz-lhe mal, o tipo é dos matutas... Semedo, vai buscá-lo!... Agora que ele saiu, enquanto chegam e não chegam e a comida acaba de se fazer, diz-me tu que o conheces melhor do que eu: o que é se passa naquela cabeça? Noto-o esquisito…

– Desde Chaves… Sabias que foi o Garção quem pôs a bandeira republicana na unidade onde prestava serviço, em Portalegre? Acho que a primeira no país todo…

– Não, não sabia disso… Conta lá.

– Pois… Uma grande parte do pessoal do quartel estava pela revolução. O Garção só tinha dezoito anos, era vagomestre, cabia-lhe hastear a bandeira todos os dias. Os do lado do rei não suspeitavam dele, por isso meteu a bandeira da república que os camaradas lhe deram debaixo do blusão e trocou a monárquica pela nova. Durante muito tempo, sentiu-se um bocado herói, como é natural… embora nunca o mostrasse, é o feitio dele… Mas ‘tás a ver, um miúdo a fazer aquilo, as palmadas nas costas, as moças a derreterem-se quando o viam… vinha aí o mundo novo e tal, e ele estava na frente para o receber e para ajudar.

– Já entendi tudo. Agora, percebeu que afinal não é nenhum mundo novo, que é o mesmo circo, mas ainda com mais palhaços a quererem pôr-nos às ordens deles e, se isso lhes der jeito, a mandarem-nos para o outro mundo com as palhaçadas que fazem. Ná!, pode ser que me engane, mas isto assim não dura muito, não demora a haver trampa da grossa. E o maralhal que se cuide se estiver à espera de melhor, que os que vierem depois vão aproveitar-se do que estes fizeram para impor o que lhes convier, com a desculpa de só assim poderem salvar a Pátria. Tu, que és mais íntimo do Garção, vê se lhe metes na cabeça que tem é que tratar de se safar, de viver a sua vida e deixar as histórias da carochinha que esta cambada inventa todos os dias entrarem-lhe por um ouvido e saírem-lhe pelo outro. É que isto adeus mundo, cada vez a pior, como já dizia o meu avô.

– Não sei se isso será bem…

– É, é… Neste país, toda a gente anda a querer enganar os outros, a dizer mal seja de quem for por tudo e por nada… A sério, a sério, acho que isto que sempre foi assim e, desta maneira, nunca se pode ir a lado nenhum… Mas cala-te, eles vêm aí. Garção, anda comer o petisquinho que a gente arranjou!

O cabo Garção agradece. Senta-se num dos bancos e vai entrando aos poucos na conversa segredada. Sabe que está a precisar de convívio, que não é bom isolar-se como tem feito ultimamente, que não pode fraquejar, que a vida é mais do que isto nem será isto para sempre… O vinho é excelente, o Semedo disse-lhe que o trouxeram de uma casa onde não havia ninguém. Com o canivete, corta um pedaço de pão e retira do tacho uma perna do coelho apanhado pelos camaradas junto à estrada, morto por um pequeno estilhaço. Não está mau, não senhor, bons amigos, podiam ter ficado calados, não o convidarem.

Aos poucos, vai-se apercebendo de um sabor mais doce do que é costume. Será dos temperos, do vinho…? Uma suspeita desperta quando se recorda de lhe terem dito que o gato se distingue do coelho por não sei quê nas articulações e pelo sabor adocicado. Olha para o osso quase esburgado, a seguir para os amigos a falarem e a rirem baixinho, numa animação, o Valente que o encara de vez em quando com um ar meio comprometido… hesita.

Súbita, alegre, quente, a ternura irrompe, a inundar-lhe o peito. Amigos.

Sorri.

Recomeça a mastigar.

Mais uma com que fica para contar aos netos. 

 

Talvez 21 

– Manuel (1), que tu as bien fait quand tu as laissé le trône à ton oncle Afonso de Bragança. Il a fait un très bon roi… Les républicains ont perdu leurs arguments pour faire la révolution. Et nous avons pu nous marier et venir à Marseille. Maintenant la guerre est terminée et tout va bien. Nous pouvons continuer à nous aimer. Sans cesse…

– Gaby…?

– Oui…

– Tu  sais que tu as parlé hier, pendant que tu dormais… ?

– Et alors…

– Qui  est ce Pedro avec qui tu parlais si doucement?

– Je  te le dirais quand tu me diras qui est Mariana, celle qui tu embrassais si doucement aussi quand tu dormais le mercredi dernier…

– Mariana… ?

– Oui mon chéri.

– Je  préfère t’expliquer plus tard…

– Et  moi aussi, je te parlerai plus tard de Pedro. Mon amour, tu sais comme j’abomine la jalousie puis je crois qu’il n y as pas d’amour sans liberté, que nous ne devons jamais cacher nos sentiments e nos impulses amoureux. Je t’ai déjà proposé le ménage avec Mary Pickford, tu l’aimes n’est-ce pas? Laisse-moi la connaître, ta Mariana. Est-ce qu’elle est jolie ? Où est-ce que tu l’as connu? Si on peut faire le Paradis dans la terre… alors, faisons-le. Et notre chat lui aussi, il sera là avec nous. Est-ce que tu l’as vu déjà ce soir, notre chat?

– Non, je ne l’ai pas vu… Où sera-t-il ?

– Mais regarde, il s’est caché au coin de la sale tout près de la lampe. Nous sommes en plein été, il va étouffer là, sous l’abat-jour… Oh viens ici mon poète, mon petit roi, mon Denis…!

 

 


(1) – Manuel, fizeste tu muito bem em entregares o trono ao teu tio, Afonso de Bragança! Deu um óptimo rei… Os republicanos ficaram sem argumentos para fazerem a revolução. E nós pudemos casar-nos e vir viver para Marselha. Agora que a guerra terminou, tudo voltou a estar bem. Podemos continuar a amar-nos. Incessantemente…

– Gaby…?

– Sim…

– Sabes que falaste ontem, enquanto dormias…?

– E então…

– Quem é o Pedro a quem te dirigias com tanta doçura?

– Dir-to-ei quando me disseres quem é Mariana que também beijavas tão docemente na última quarta-feira, enquanto dormias…

– Mariana… ?

 – Sim, meu querido.

– Prefiro explicar-to mais tarde…

– E também eu te falarei de Pedro mais tarde. Meu amor, tu sabes como me repugna o ciúme, que para mim não existe amor sem liberdade e que jamais devemos reprimir os nossos sentimentos e impulsos amorosos. Já te propus vivermos com a Mary Pickford, tu gostas dela, não é? Deixa-me conhecer a tua Mariana. É bonita? Onde é que a encontraste ? Se se pode fazer Paraíso na Terra, por que esperamos? E o nosso gato também há-de lá estar connosco…. Já o viste, esta noite?

– Não, não o vi… Onde se terá metido?

– Olha bem, escondeu-se ao canto da sala, junto do candeeiro. Estamos em pleno Verão, vai sufocar ali, debaixo do abajur…! Oh, anda cá meu poeta, meu reizinho, meu Dinis..!

 

 

Talvez 22 

– Il (1) me semble toujours avoir chez moi un petit sorcier, avec ses grands yeux. Il m’inquiète vraiment, je vous assure. Comme si un mauvais esprit me menaçait tout le temps. Mais il m’est quand-même utile, il explore partout, il chasse des souris, je ne peux du tout me séparer de lui. Je vous demande de l’apporter ce soir à la nouvelle maison que j’ai loué, s’il vous plaît.

– Bien sûr. À vos ordres, monsieur Descartes.


 

 (1) – Parece-me sempre ter em casa um mago pequenino, de grandes olhos. Não sei porquê, tal deixa-me inquieto, como se estivesse constantemente sob ameaça de um espírito malévolo. Mas afinal não posso prescindir dele, é-me bastante útil, mete-se por todos os buracos, dá caça aos ratos. Peço-vos o favor de também o levardes esta noite para a nova casa que aluguei.– Certamente. Às vossas ordens, senhor Descartes.

 

 

NOTA FINAL 

Suponho que o Tempo considere esta História como fictícia, embora, segundo a história que me contaram, D. Manuel II, D. Amélia, Gaby Deslys, Teresa de Saldanha, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Teófilo Braga, Antero de Quental, Viriato, Afonso Henriques, Rolão Preto, a irmã Marcelina Viana, Einstein, Schrödinger, Pêro Coelho, Maria Mendes Petite, Estêvão Coelho, o padre O’Daly, D. Dinis, D. Afonso IV, Inês de Castro, D. Pedro I, Hegel e o próprio Descartes hajam mesmo existido. O mesmo não poderei dizer de António de Oliveira Salazar, porque seria mau demais para ser verdade.

Verdadeiros, verdadeiros, assim de carne e osso, foram, para começar, o cabo Garção e o cabo Valente. Da História de João Martinho Garção, incluí os episódios da batalha de Chaves e do hasteamento da bandeira republicana no quartel de Portalegre, que me foram relatados pelo seu filho e meu irmão-do-peito, o poeta Nicolau Saião, a quem muito agradeço. Da de António Lúcio Aguião Valente, meu tio-avô e mais avô do que tio, só posso dizer que esteve em França na I Guerra Mundial (não sei se integrado no CEP ou se no CAPI), que terminou a carreira no posto de capitão da Arma de Artilharia e que foi o instrutor militar de Otelo Saraiva de Carvalho. Não me lembro de o ouvir falar sobre a Monarquia do Norte e, portanto, não sei o que ele fazia ou não fazia à época. Mas gostei muito de o ter ao lado enquanto escrevia, a rir-se e a chamar-me aldrabão.

O tio Artur e a tia Anastácia eram meus vizinhos e tios de um companheiro de infância. Não tinham nada de seu, mas ficaram com uma boa parte do meu afecto e, por isso, não podia deixar de lhes dar um lugar de honra.

Verdadeira também, de pedra e cal sobre o rochedo à borda d’água, a Igreja do Senhor da Pedra, em Gulpilhares.

Finalmente, o gato – que julgo não fazer parte da História de Descartes. Apareceu por aqui num dia de sol vindo de algures, percorreu toda a casa em passo inquieto e apressado, saltou casualmente para junto de mim, olhou-me e deitou-se de imediato ao meu lado. Não me senti capaz de o mandar embora, porque nenhum dos dois duvidou de que passara a fazer parte das Histórias do outro.

Ainda cá está.

Não é mau tipo. 

 
 
 
 
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