Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências
Revista TriploV de Artes, Religiões & Ciências .
ns . nº 55 . dezembro 2015 . índice








João Pereira de Matos
(Lisboa, 1973).
Publicou A Machina Circunspecular, Fumar Mata (ilustração, Requiem par'Imortais, Ônfalo, Ciência Vaga, Cancioneiro d'Érebo, Scherzi, Visões do Vazio em um Livro Autógrafo e Ossa et Cineres, todos pela Editora Apenas Livros. Colaborou em vários números das revistas Seara Nova, Big Ode, Callema, Minguante, Piolho, Nova Águia, Côdeas e na Revista Cultura.




 
JOÃO PEREIRA DE MATOS

Post Scriptum
 
 

Digo-te, caro Malaquias, que, por vezes, insuportável é o formigueiro provindo desses ávidos vermes que me corroem as carnes; e que fausto festim é o deles, dos vermes, desde que toparam com o insepulto corpo deste teu amigo, finado para os perecíveis padrões da morte das gentes mas ainda cônscio do que à sua beira se passa e, pior do que tudo, atento e desperto para as transmutações operadas em seu próprio âmago, no macabro historiar das ominosas forças da corrupção que nos mastigam por dentro quando se instalam, ladinas, senhoras do mundo, mormente se o sangue, já não fluído, deixa de insuflar vida fresca nos vivos tecidos, se esverdeia a tez e os transbrilhantes glóbulos oculares se embaçam de morte.

Contudo, morto como esteja, sem veleidades respirantes, preservo sempre a rotina e, assim, me correspondo aos dilectos, no rigor do fluxo das missivas, certo pelos dias, por muito que minha penosa caligrafia se torne rígida de garatuja pois, como decerto compreenderás, músculos e tendões são tecido gasto a desurdir e o alvor dos ossos desponta pelos pedaços de ausência, outrora recoberta por matéria pulsante; mesmo as ideias, de resto, me parecem se esvair pelo exacto lugar onde a polpa encefálica se liquefez em nada ou em apetitoso alimento para as larvas.

Persisto nas rotinas de sempre porque outra coisa não sei. Ainda se soubesse não veria por isso vantagem em modificar o exacto rito das minhas horas, as missivas, sempre constantes, o hábito da escrita. Assim me habituei, assim permaneço. Ademais sou a atribuir a estranha sobrevivência ao sortilégio dos textos. O corpo não foi avisado de que teria de aguentar enquanto eu não terminasse a  minha obra e teve a desconsideração de morrer; máquina que bombeava o sangue, que me fazia mexer com outra desenvoltura, decidiu terminar de maneira abrupta o seu labor; recusando-se a funcionar nem por isso eu, que sou mais teimoso, desisti; por vezes, querido irmão, devo confessar que é penoso continuar a resistir, a escrever, a escrever apenas pela necessidade de o fazer; era bom o descanso, adentrar nessa inconsciente vacuidade dos já decessos, doce e negra, sem sonhos mas sem cuidados; não medir o verbo porque partir para o radical esquecimento é olvidar toda a angústia identitária que é a vera cifra do penar autoral; ser uno com o nada que nos espera a todos no final do nosso tempo só pode constituir um bem para quem já muito penou e sofreu, para quem deixa sem mágoa os bens terrenos em prol de uma possível glória nos mundos invisíveis; só longe deste plano terrestre que reserva tanto sofrimento para quem nele habita se pode dizer que o tempo da obra começou; e sempre, para mim, muito mais importante foi a sorte ou infortúnio do meu registo escrito, cujo fito é nada menos do que sondar o indizível todo do cosmo; é justamente a gravidade da minha tarefa que sempre me pesou, que me fez percorrer a vida - enquanto a tive - recurvado sob o jugo do seu peso. Mas como lograr essa libertação, eu que dediquei os meus anos, as minhas preocupações constantes à tarefa magna de saber o que de mais profundo se acoita e esconde nos contrafortes da existência?

O lar do sentido, o sucesso de tão peculiar certeza: não sou. Deví quase imaterial por decesso, abdiquei, por força, de meus domínios, expurgado de fazenda e de corpo, mesmo de voz e de rosto. Persisto, contudo, em puro verbo de me dizer assim perdido. Ainda há consciência e isso, pesadelo cartesiano pois ainda não alcancei o meu próprio olvido, vastidão do negrume que é de um descanso e tão dulcíssimo, faz arrastar o tempo por não sei quantas eternidades só percebidas no caleidoscópio de tanta mudança vista e não vivida porquanto não passível de uma intervenção directa e corpórea, já que, como te digo, a carne se desfaz a olhos vistos. Puro observador e mesmo atento de tudo quanto há no século, tão demente e carecido de justa medida mas por tal excesso que serei todo nostalgia de não ser vivente e actuante nele. Que fazer? É sina do meu destino, penar em alma e corpo gasto por este mundo. Por vezes, tanto atroz cortejo de horrores fará dar graças ao que me exime de colaborar nessa desdita; por outro lado, o prazer dos prazeres do que é vida, encontra em mim tanta saudade: o olor perfumado da manhã d’Estio, o entardecer plácido quando a comunidade antevê o repasto, e a festa que se estende por vasta noite, variegada de luzes como espéculo das estrelas. Não estar, que é um correlato de não-ser, dói e magoa, assim ainda o grito que se estanca de impossível, não havendo sequer já cordas vocais que pudesse tanger… Fui de quase suicidário desdém pela vida, então os dias, hoje memória, eram densos de opressiva errância (agora peno por ser de quase etéreo corpo). Desperdiçada e fútil sobrevivência, talvez, como é todo o existir desatento de si, das ocupações quotidianas que, sem horizonte, se esgotam a cada momento. Não fui rico nem pobre nem tive o doce ósculo da Fortuna; da fria crueldade dos homens sofri, contudo, abundante contacto, assim como das dificuldades próprias de quanto vivente que de sensível e bondosa catadura se condói da maldade que livre e irrepresa grassa ligeira e alada… Por desatinada ventura foi tal que te não espante o ânimo suicidário com que vivi os meus derradeiros dias. De angústia e tormento foram seguramente e, ao fim, dei graças à precária matéria que nos constitui, emergente mortalidade acessível a todos. Certamente, devo confessar que, a princípio, nem sequer percebi o meu decesso, apenas a diferença marcante de um acentuado diminuir da ansiedade que afinal é conatural ao estar vivo: passando para o outro lado, não teremos já nada a perder… Nem sequer a notícia chegou a quem comigo privava. Já seriam os mortos os meu conhecidos, uma comunidade feita de óbitos, fantásticos fantasmas ou, então, tal a força de um hábito que dissolvia o limite; os mesmos lugares lúgubres de não-esperança, as mesmas conversas de circunstância, a rotina imensa do não-ser, do esquecimento de ser, com próprio alor e força, a pujança de um primevo hausto. Assim também atribuo o facto da indistinção do meu perecimento com a antiga vida. Tudo se equivale e desse modo nem morrer é partir. Só a circunstância etérea diverge. Uma incorporização acentuada, um já não tocar das coisas, mesmo que tal não acontecesse antes por alienação da própria vontade e desejo.

Houve um tempo em que nada era assim. Sucedeu-se uma biografia tão cheia e plena como outra qualquer e isso emprestava o lastro suficiente para me prender à realidade. Não sei quando isso deixou de ocorrer. Não houve um facto que marcasse a fronteira ou, como verás, houve vários momentos em que, passando o limiar, já não me encontrava entre os vivos. Tão-só o progressivo diluir do sentimento em coisa nenhuma, a conformação com as potências do mesmo que, à espreita da sua oportunidade, souberam imiscuir-se e depois dominar a minha sina… E, como era bom sentir-me uno com o real, pertença do mundo e da sociedade, movido pelas coisas que movem as gentes, ainda que banais e chãs. Não, eu ainda não sou em completa dissolução. Por certo, uma voz ainda que inaudível, uma consciência ainda que evanescente, talvez que se vá sumindo até à vera morte, talvez que não haja estágio final permanecendo geometricamente em anulação progressiva sem jamais chegar ao nada do próprio olvido.

Adivinho já a tua cara de espanto: Então, após o teu decesso não só não me disseste que eras morto como continuaste a corresponder-te comigo como se nada fosse? Compreendo a tua incredulidade mas, em bom rigor, tantas coisas tinha para te dizer que me esqueci de mencionar esse facto que, apesar de tudo, sei capital na minha biografia.

Como faleci? Pois, acho que foi porque me mataram. Era um dia estranho cujo negro céu, úbere de chuva e da promessa de tempestade, foi testemunha indiferente da minha alegria e terror.

Pela alba, recebi a notícia de que o meu  editor tinha, finalmente, concordado em publicar o meu estudo que tantos anos e cansaços, preocupação e suor me custaram até o concluir.

Como te disse, foi sob uma atmosfera opressiva que tão cedo parti em direcção à editora. Queria ouvir de viva voz a grande nova assim como, desde logo, acertar certos aspectos práticos da publicação. Não estranhes a minha ansiedade. Trabalhei com todo o afinco, mesmo sabendo que poucas hipóteses teria de ver impresso o resultado das minhas investigações. Quem quereria ler o relato, quase policiário, dos meus estudos angelográficos?

Tu, que acompanhaste pari passu o meu projecto, bem sabes que afinal há um interesse quase encantatório no meu escrito.

Partindo de uma hermenêutica bastante tradicional – os quatro sentidos possíveis de análise de um texto esotérico – e pacientemente cotejando quer os tomos canónicos quer aqueles mais obscuros que, aliás, muitos dizem ou insinuam serem apócrifos, encontrei, a pouco e pouco, certas e poderosas evidências de que os anjos, esses misteriosos mensageiros da Palavra, há muito que se encontravam entre nós – vivendo vidas vulgares para melhor se movimentarem na sombra da nossa comum percepção. Tinham por missão reportar à Divina Potestade as angústias e atribulações das humildes gentes, ao mesmo tempo que, com a subtileza que lhes é própria, iam aferindo da qualidade e força da fé pois – outra dedução surpreendente – é facto que sem criatura não há Criador e se os homens deixassem de prestar o devido culto ao Demiurgo, o que seria Dele? Recairia, decerto, na indistinta e nebulosa penumbra de um motor imoto, um mero princípio teórico, obscuro e arcaico iniciador das coisas sem a elas, em rigor, pertencer, eximido da série causal e histórica da humanidade, entretida em tomar em mãos a condução do seu próprio destino!

Eis, portanto, a questão: nada há neste vasto mundo que se não encontre interligado em dependência mútua e numa hierarquia que não é linear. Ora, os anjos, estando como que a meio termo entre Deus e os homens são, porventura, a chave, a cifra secreta que permitirá desfiar o novelo de uma verdade possível que, desde sempre, iludiu os mais argutos investigadores. Com a minha consabida humildade sou a confessar-te que talvez eu estivesse a aproximar-me dessa evidência e pergunto-me se não terá sido por isso que me mataram... Mas, estou a adiantar-me à história. Pois bem, nessa lúgubre manhã parti, em alvoroço em direcção à editora que, desafortunadamente, se localizava na outra ponta desta minha cidade. Facto bizarro: encontrei muito poucas pessoas na rua o que não é comum pois, além de ser Quinta-Feira, tal como uma vasta e populosa colmeia, em todas as horas, zumbe de frenética, incansável, actividade. Por outro lado, debaixo daquele céu, não achei surpreendente assim com, devido ao desassossego mental que a notícia me causara, considerei ser quase natural não reconhecer as ruas por onde avançava. Esclareço: conhecendo bem a topografia desta grande urbe devia, em retrospectiva, ter suspeitado de algo pois a geografia a que estava habituado tinha-se emaranhado e confundido. Certos monumentos não estavam onde deviam estar e algumas estátuas pareciam olhar-me com um sorriso perverso e jocoso, como testemunhas de pedra mas sencientes de um drama que se iria representar em minha honra e onde eu seria o protagonista e, em vez de detective, a vítima. Enfim, o que te quero dizer, era que todo o ambiente aparentava aquela sensação angustiante dos pesadelos onde o menos usual, por virtude da incrível transformação onírica, nos parece comum e evidente. Pergunto-me se nesse dia já estaria morto e se os acontecimentos funestos dessa manhã não seriam um eco do meu verdadeiro decesso, uma circunstância cujo propósito fosse, tão-só, lembrar-me de que eu já não era. Não o sei, a suspeita permanece e adiante explicar-te-ei o porquê desta dúvida. Por agora, caríssimo, basta dizer-te que avancei pela névoa desse sonho, determinado a chegar aonde queria. De qualquer modo, quando se experimenta uma grande emoção é conhecido o fenómeno que determina que por virtude do nosso ânimo as coisas se metamorfoseiem. Apesar de tudo, o meu livro ia ser publicado!

Enquanto assim pensava, notei que estava a ser seguido. Não conseguia ver os perseguidores, apenas ouvia um rumor em surdina, por vezes, o murmúrio de vozes atrás de mim, não muito perto, só o suficiente para perceber que algo de grave e perigoso se estava a passar naquelas ruas desertas. Comecei a ficar assustado, estugando o passo, virando de repente numa esquina ou parando de súbito para melhor poder escutar. Quando parecia a salvo e podia respirar fundo e seguir o meu caminho eis que recomeçava a caça e eu, como acuada lebre, tornava ao meu percurso cada vez mais errático. Corria até ficar sem fôlego, desviava por vielas escuras ou andava pelo meio das avenidas na esperança de encontrar algum conhecido que me salvasse. Todas as tentativas foram inúteis. O pior é que no meu pânico fui adentrando numa parte da cidade que mesmo em circunstâncias normais é um dédalo de que só os verdadeiros conhecedores dos seus meandros sabem como sair.

Assim, juntei à transfiguração da ansiedade a transfiguração do medo, depois a vertigem do terror e depois, ainda e por fim, sobreveio a fria calma do desespero, a absoluta serenidade de quem sabe que tudo está perdido. De que adiantava inconformar-me com o ancestral destino da presa na caçada? Quanto mais acelerava em minha doida corrida mais pareciam aproximar-se, predadores implacáveis a um tempo rumorejantes e silenciosos, cortando as rotas de fuga com a sistemática exactidão da fera que aguça o dente, escancara as fauces e sente já o cálido sangue da pobre vítima. Seriam Legião a corja dos meus perseguidores, aprazados algozes que jamais me deixariam escapar.

Apesar de, como te disse, pouca importância dar à própria vida tive a fatal consciência de que não veria publicada a minha obra, o que me encheu de um pesar tão fundo e pungente que o rio das lágrimas correu abundante queimando como ácido o meu rosto, queimando como ácido a minha alma.

Então é assim, quando finalmente estou tão próximo do culminar de toda a minha vida vou perecer nestas ruas sujas, às mãos de assassinos sem face e sem nome, tão anónimos quanto eu? Porque é tão cruel o Destino? Não lhe chegam as catástrofes, sofrimentos e dissabores que continuamente, desde o princípio do tempo, fustigaram sem cessar esta cansada humanidade?

Não obtive, como calculas, qualquer resposta.

Somente se apertava o cerco. Estava eminente o meu fim.

Ao entrar num beco particularmente feio, degradado, em ambos os lados emoldurado por casebres em ruínas cujas janelas pareciam as órbitas vazias de um ricto cadavérico, vi aquelas figuras pardas que me esperavam para consumarem a minha morte. Estavam à minha frente mas alguns tinham coberto a retaguarda prendendo-me na tenaz hipnótica do desespero. Com uma lentidão ritual avançavam de modo imperceptível, vultos de sombra na penumbra o que lhes multiplicava o número e aumentava o carácter tão prosaico quanto fantástico do seu homicida comportamento. Tentei interpelá-los. Disse-lhes que nada tinha para roubar se tal fosse o seu intento. Pedi que me poupassem a vida, roguei-lhes pragas e vis promessas de servidão. Perguntei-lhes porquê? Só obtive o seu obstinado silêncio ou, talvez, risos? Não sei, na confusão dos últimos momentos tudo se confunde enquanto uma aguda lucidez nos faz recordar todos os momentos mais importantes da vida que, em jeito de despedida, nos parece mais doce e nostálgica. O tempo dilata-se mergulhando o morituro num sonho desperto onde cabe toda uma vida, os mais ínfimos pormenores que juntos compõem a singularidade de uma biografia. Depois senti frio. Seriam as lâminas que penetravam na carne? Seria que me bateram até à morte, ou um único e solitário tiro foi suficiente para me liquidar? Jamais saberei. Senti um torpor muito maior do que o induzido pelo soporífero mais potente, um abandono que transcendeu qualquer sono químico. De tal modo que também desconheço qual o lapso que fiquei sem saber de mim. Acordei com o fantasma de uma dor aguda no abdómen mas em aparência incólume na minha própria cama! Percebi, no entanto, que algo estava errado, que qualquer coisa de irreversível e capital tinha acontecido.  

Borges, inspirando-se em Swedenborg, insinua que cada homem constrói o seu céu e o seu inferno. Eu, inspirando-me em Borges, pergunto-me se o não fiz. Talvez nesse dia fatídico já estivesse morto e como não me lembro das circunstâncias exactas do meu decesso continuei a imaginar um quotidiano de sereno pesadelo, assim como o sonhador pensa que permanece na vigília e por isso aceita toda a sorte de fantásticas, impossíveis, situações com uma normalidade só encontrada no plano onírico.

É que para além da horrível perseguição lembro-me também de uma luz muito intensa que eram faróis de um automóvel em célere-assassina urgência em minha direcção. Não sei como conseguiu travar mas, no último momento, estancou e milímetros do meu corpo. Será, no entanto, que conseguiu parar a tempo? Será que a minha memória é fiel? Por vezes sinto uma dor intensa no sítio que julgo me atingiria, como se tivesse fatalmente embatido. É uma dor bastante diáfana, a bem-dizer, uma dor quase imaginária em tudo semelhante à dor de um amputado que assim comemora o seu membro perdido. Ou melhor, visto noutra, perspectiva uma dor que um fantasma poderia sentir.

Uns dias (ou anos?) após este incidente cruzei-me com uma mulher muito alta que, ao longe, parecia bela. O rosto, afinal, era medonho, sem idade ou ternura. Um sorriso cúmplice e perverso, um olhar... Não, nem me quero lembrar do olhar. Andei, apressado, uns passos mas quando me virei já lá não estava. Onde poderia ter entrado? Era uma rua deserta e ampla a desoras da noite, todas as portas estavam cerradas.

De qualquer modo, quer tenha sucumbido ao veículo desgovernado, à turba demoníaca ou me tenha cruzado com essa Senhora da Gadanha que tem o psicopômpico propósito de nos levar para o outro mundo, senti nos ossos que algo não estava certo. O quotidiano parecia cada vez mais sujo, como se o próprio cosmo, insensivelmente, se degradasse. As gentes mais boçais, e tristes. A urbe mais escura, e melancólica. Estes livros que tão bem conheço amareleceram quando os julgava ainda novos. Mais grave: quando os folheio não raro é estarem incompletos, cheios de gralhas, alguns até desafiam o sentido quando sei que os seus autores primam pela claridade da sua escrita.

Uma atmosfera opressiva... E depois, quem vejo na rua, de semblante ausente, com bizarros atavios, não deste tempo (não saberia dizer de qual, no entanto), roupas tão cinzentas quanto a tez. Não reconheço ninguém. Não são, por outro lado, totalmente estranhos, há algo de familiar ainda que como tudo o mais nesta realidade crepuscular não consiga situar e dizer tu és fulano, encontrei-te há dois anos... ou brinquei contigo na escola, o que foi feito de ti? Nenhum transeunte fala, mesmo que em grupo, olham para o chão. Quem levanta a cabeça e me encara é com olhos de inenarrável perfídia ou loucura ou, ainda, varando-me no para-além-de-minha-presença.

E gatos, muitos. Esquálidos. Ágeis e furtivos.  

Ah, e esta letargia também me não parece natural. É claro que se não parece com os vulgares estados de alma que comummente afligem os depressivos. É um langor suave, uma vontade de permanecer e parece que, de cada vez, se passam muitas horas ou dias (ou anos?) antes que levante um dedo. Não, não tenho fome, nem sede, nem sequer vontade de querer comer ou de me dessedentar, apenas a nostalgia de quando queria. Não sinto tristeza mas uma imensa e doce e suave melancolia. Vejo os rostos que não envelhecem passarem por mim sem me verem. Pressinto essa figura alta. Essa que olha para mim e eu a não vejo. Aí está, talvez, o seu reflexo na dobra de um tomo, no papel que se rasga ou se transforma em pó ao mais leve toque. O pó. O pó parece que poisa sobre tudo. Nas vestes, no chão, sobre os móveis que, aos poucos, vão parecendo mais frágeis, toscos e grosseiros. Sempre me orgulhei do meu gosto. Nunca fui rico e por isso adquiri pouca mobília. Contudo, preferi os objectos sóbrios e elegantes. Como pude apenas deter estas ruínas? Eu que sempre cuidei do que é meu, como deixei acumular tanto pó? Será que é isto, estar morto? Conviver com um purulento destino para, no fim, me afogar num mar de pó. Até o meu corpo se foi transformando em ritmo acelerado. Mais seco de carnes, com as articulações mais rígidas. É assim que me decomponho e assisto à desagregação de mim próprio, sem dor, é certo, a não ser pelo sofrimento de experimentar tanta indiferença pela decadência, a própria e a de tudo o que me rodeia. Como se as cores fossem mais baças, o brilho do Sol menos ofuscante, neblina perene, humidade omnipresente e pura, máquina infinita de bolores e mofos e verdetes e de toda a recomposição da matéria numa forma decaída, degradada de si mesma, oh, como inferno assaz platónico onde é a própria ideia que fenece.

Tudo isto são indícios que me levam a especular... a imaginar se estando morto não fui eu que divisei este limbo. Como um sonho. Criei a minha própria expiação, fechei-me no Érebo daquilo que mais abominava porque não cumpri o objectivo final da minha vida ou porque o cumpri demasiado. Explico: vivendo na intensidade do espírito o meu medo sempre foi que se embaciasse a claridade hialina do pensamento. Toda esta degradação vital que sobre mim se abateu corresponde a um adensar daquilo que aterroriza qualquer intelectual desde que o mundo é mundo. A saber, que essa ordem que com afinco se procura não passa de uma arbitrária configuração, sem uma razão universal que a sustente. É o que eu chamo de Inferno cartesiano, o único em que eu poderia habitar, pois se existo porque penso o meu próprio pensamento escapa ao redil da vontade e cria mil angústias como um arquitecto enlouquecido que desenha um labirinto irracional ao sabor de um capricho inconsciente onde vai, depois, habitar e perder-se até ao fim da eternidade.

Quanto tempo mais sem ter resposta?

Foi com grande espanto então que esta terrível monotonia de ser perecido assim como o horror de me ver lentamente tragado pelos vermes se quebrou quando recebi a tua carta.

Foi o sinal de que um mundo exterior a mim e ao meu delírio continuava a existir e ao qual eu podia ter acesso. E ressurgiu a esperança que através da nossa troca epistolar pudesse, enfim, acabar a missão que me foi destinada, a saber, levar a bom-porto a minha obra e com isso conquistar a minha paz e depois, sereno, partir para esse Além da insciência e do olvido.

Nem tudo é mau, contudo. Sinto uma singular libertação. Em meio à névoa, sei que posso ser eu como nunca antes tinha sido. Como nunca antes tive a coragem de ser. Compreende: a liberdade, neste limbo, é uma coisa nova. Antes (enquanto era vivo?) tinha medo de tantas coisas, um pudor opressivo dominava a acção, limitava o voo da imaginação, era um tecto baixo para a minha ambição. No adumbramento perene que é, hoje, um horizonte quotidiano nada tenho, nada sinto que me limite ou embarace. Vejamos: nada esperar permite o risco pleno. Nada querer permite a experimentação, mesmo, a transgressão. Quando se não evita já o perigo pode-se incorrer até na impiedade que é tentar aquelas coisas que a prudência aconselha a evitar. Assim, sinto uma força no meu espírito que é uma novidade salutar ainda que não tenha, ainda, produzido resultados. Entenda-se, isto apenas é uma sensação fugaz, e tudo o que produzo é de natureza ficta. Fico sentado à soleira da minha porta (o que é também um pouco incoerente pois julgava viver num alto e moderno edifício; afinal encontro-me numa casa baixa, já bastante degradada...) e construo uma obra imaginada. Rica, luxuriante, complexa. É evidente que ainda a não cumpri. Imaginar parece ser ocupação suficiente, realiza-me e é o que basta.

Se o maior inferno é a culpa, será a absolvição a imagem precípua do paraíso? Não é por acaso que mais vívida tem sido a descrição das penas infernais do que da bonança celestial. Compreendo agora como nunca entendi que é muito mais fácil acolhermos a queda e o sofrimento do que solver as antinomias que nos dilaceram e, desse modo, fruir de um módico de felicidade. As torturas por muito rebuscadas que no mais escuro último círculo do Hades se pratiquem parecem muito mais reais mesmo que o sejam pela eternidade, do que uma homeostase beatífica e pura que se suspeita plena de tédio e desânimo pois se a dor é uma forma de estar vivo, o bem-estar de um equilíbrio perfeito, supremamente, aborrece.
Por certo, nem sempre fui assim tão triste. Tive uma infância, suponho, normal. É curioso. O meu pai que dava grandes passeios também apreciava ficar à soleira da porta (a nossa casa era pequena e antiga) a ver quem passava. Tímido nem por isso deixava de cumprimentar os conterrâneos. Eram outros os tempos, as pessoas tinham mais tempo, a cidade não sendo mais pequena parecia-o.

Vários são os limites a quem porfia nas sombras. Quem é feito de nada, menos que uma insubstancial aragem porque estrutura que se dissolve, quem quis tudo e ainda quer, talvez por isso sempiterno subsistente entre os viventes, ah, que vontade de gritar, fazer-me presente aos olhos do mundo, que as pessoas pudessem estancar na rua e para mim olhar, renascido de carne, entregue aos prazeres da matéria pulsante, avisando a todos que queiram ouvir que se não desperdice o dom de existir encarnado, com duas mãos possantes e densas para tocar e sentir a suavidade de um rosto belo. Como sou, tudo passa através de mim, ninguém presta atenção à minha figura, parda não presença de quem, aliás, nunca foi notado, desse que viveu aparte dos outros, sem conhecer amor ou fundo afecto, a centelha reconfortante que anulasse a solidão. Esse é o grande drama. Não morrer veramente por veramente não ter vivido mas tão-só fingidor da vida, histriónico praticante sem qualquer talento ou vontade de representar tal anódino papel no drama manso de um quase-existir. Nunca tive vocação para a vida e agora também sei que o não tenho para a morte. Que fazer? Neste ponto do meu acontecer já não há regressão, não uma vindicação da passada existência, ditosa solução do impasse da morte. Estou aqui. Ponto. E querendo não estar, sonhando partir para outras paragens, ainda uma última oportunidade de me mostrar útil e completo a mim próprio ou a outrem, a natural criatura ou a supra-natural entidade - que seja um íncubo ou demónio, já não importa. Só quisera trabalho ou função um laço que me prendesse a essa afanosa humanidade, viva ou decessa, ou, como disse, até a outra comunidade ainda que de infernal jaez. O que teria necessitado e ainda exijo era de propósito, uma razão para tanto padecimento que de tal monta desdiz a sentença de Sileno, porquanto tendo nascido mas de falecimento prestes não fui agraciado com a santa insciência do não-ser, perdurando torturado e triste agarrado a não-se-sabe-o-quê, nem ficando nem partindo, pois não cai o pano sobre a permanência de tanto infeliz cuidado quando nem capaz de abandonar o mundo me foi dado em força e poder. Sumindo-me de mim, recaindo em torpor de imagem parada, desbotando-se os dias e noites, pois também o exterior perde o brilho e se embaça ou pela repetição do mesmo ou porque já nem o vejo com o mesmo interesse de outrora e nem sei há quanto tempo porfio nesta desdita. Só, convivo com esta invulgar maleita do entre-ser, quero dizer, sendo não-estando, estando sem ser.

Não & não, as puras potências do Não são de meu pleno domínio, conheço-as em demasia já que com elas privo e sou capaz, por isso, de aconselhar o neófito destas coisas da cessação da vida em tudo o que doravante lhe será negado, neste escorregar constante pela víscera do real, tendendo para o transparente e imaterial, endoidecido pelo que vê e não pode tocar, pelo que ouve e não pode dizer, pelo que irá esquecer e não poderá fixar em perene suporte.

Quisera ser outro, alguém que, decididamente, viveu a vida e, de permanente, morreu na morte.

Por tudo isto, te digo, que penso que seja isto o inferno.

Coloca-se a questão de saber o que sou. Finado mas ainda aqui, dialogando contigo, perdendo progressivamente densidade mental mas suspeitoso do horror de restar para sempre, residual conquanto perene, bruxuleante luz que ténue quanto seja se não apague… Porém, tudo isto não é senão permanecer no vasto círculo da existência. Sei que estou morto porque passei a ver o reverso das coisas, os contrafortes do que de essente subsiste apesar da mudança que afecta tudo o que vive e respira, a sua rápida decomposição agora que me sei mais imune ao tempo… Porém, nem isso é acréscimo como percepção mais aguda ou lúcida outrossim a subtracção de um obscurecimento do visto, reduzindo-se à estrutura, a ossatura por trás da face, já os vermes nas vísceras, a ruína no pujante edifício, e as cidades apenas pústulas de urbana gangrena… Até a memória poderá ser regressiva, ou seja, o esquecimento suplanta o retido, grandes continentes da minha pessoal biografia adensam-se em nebulosidade difusa… Serei a dizer-te mesmo que só experimento aumentativo, progressivo, desejo… Anelo de ter fome que se não sacia, vontade de ter sede que não se estanca, necessidade de Sol onde se não encontra densidade para haurir seus feixes de pura luz… É provável, então, como te digo, que o término deste meu processo de aluimento, das mil-mortes-após-a-morte seja inevitável concentração de toda essa volição, exigência frustre em penar intenso, desidério sem queredor.

Mas não sei, contudo, se se pode veramente morrer: mesmo que mil esbirros me persigam não sei se há movimento ou se levariam uma eternidade perseguindo-me e eu sobrevivendo-lhes, para sempre acuado-temeroso, para sempre sentindo-me a mais célere tartaruga que escapou a esse agilíssimo Aquiles. E se não houver distância? Um logro o espaço e constantemente estaria a ser assassinado se uma angústia fosse isso, a falta infinita daquele lapso salvífico. Um milímetro. Um milímetro apenas.

Embora esta já indo longa, ainda assim, itero & tu sabes que, enquanto a carcaça o permitir, as cartas não serão interrompidas, plasmando, ademais, as tristes reflexões dum espírito que, apesar de pleno não desencarnado, teima em sobreviver ao pobre corpo.

E tudo isso suportaria com o meu habitual estoicismo não fora, como de inicial abertura te confidenciei, este perene formigar insidioso e a suspeita atroz de não se estranhar o caso de continuar desperto após se ver completo o consumo das carnes e, de mim, não restar senão avulso montículo de ossatura, impróprio até para os minuciosos parasitas que tragam o que de suculento no pútrido há a limpar no irreversível da universal dissolução.

 
EDITOR | TRIPLOV
Contacto: revista@triplov.com
ISSN 2182-147X
Dir.
Maria Estela Guedes
PORTUGAL
 
 
 
Página Principal
Índice por Autores
Série Anterior
 
www.triplov.com
Apenas Livros Editora
Revista InComunidade
Agulha
Revista de Cultura
Triplov Blog
www.triplov.com