Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências
Revista TriploV de Artes, Religiões & Ciências .
ns . nº 55 . dezembro 2015 . índice


  Carlos Loures (1937, Lisboa).
Poeta, cronista, romancista, editor.
 
CARLOS LOURES

O meu amigo Germano Sacarrão
 
Homenagem a Germano da Fonseca Sacarrão . Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 1.10.2015.
 

Estávamos em 1982. Fôramos apresentados por Francisco Lyon de Castro anos antes. Lyon de Castro, editor do Professor Sacarrão na Europa-América, era administrador da Salvat em Lisboa, pois quando a empresa se constituiu em 1971, a lei exigia a participação maioritária de capital nacional. Eram muito diferentes – Sacarrão, alegre, franco, malicioso, generoso; Lyon de Castro, pese embora uma inegável perspicácia e uma invulgar audácia como homem da edição, tinha o que se costuma chamar um «mau feitio». Eram amigos, apesar disso. Quando Sacarrão ia a Mem Martins, jogavam animadas partidas de pingue-pongue que, perante o desespero de Castro, Sacarrão quase sempre vencia - «tiveste sorte», era o comentário invariável do editor.

A amizade foi instantânea. O tema de uma das nossas primeiras conversas no restaurante «O Polícia» foi a circunstância de sermos indígenas da mesma aldeia – eu nascera na rua dos Douradores e ele em Santa Quitéria, mas cedo mudou para a rua dos Fanqueiros. «Ruas feias» disse. Concordei e contra-ataquei - «Mas, Professor, que ruas ou avenidas têm uma história como a da nossa aldeia? A rua dos Douradores ou do Desassossego, tem vizinhos como Bernardo Soares que disse: «Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores»; ou como Antero de Quental que ali viveu num quarto andar do nº 135; noutro quarto andar, mas do número 20, Alfredo Costa, um dos regicidas tinha o escritório; Aquilino Ribeiro por ali andou e João de Deus também – não consegui apurar em que números e andares – antes de todos eles, ali viveu o Senhor Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, pai de um tal Camilo Castelo Branco que nasceria para os lados do Carmo. Na rua dos Douradores, situou Eça o escritório de Godofredo da Conceição Alves, o traído e conformado protagonista de Alves & Cª. O carbonário António Maria da Silva, líder de executivos da I República, quase fora surpreendido pela polícia presidindo à cerimónia de catorze iniciações  maçónicas no seu escritório junto à esquina com a Rua de Santa JustaNo escadório da Igreja de São Nicolau, situa Gervásio Lobato a hilariante cena do casamento da sua Lisboa em Camisa. No cruzamento da Rua dos Fanqueiros com a de São Nicolau, a poucos metros da esquina com a Rua dos Douradores, ficava o posto do Vale do Rio onde certo correspondente comercial de um escritório da Rua dos Fanqueiros foi apanhado em flagrante delitro…Não recordo os termos exactos em que defendi os pergaminhos dos locais que com vinte e poucos anos de diferença foram o nosso universo, mas o sentido foi este. Ele disse não ter ideia de que ruas tão feias tivessem tanta história.… Recordar nomes e locais foi tema da nossa primeira conversa.

Num dia de 1982, estávamos, o Professor e eu, nas instalações em Lisboa da empresa catalã cujo sector editorial eu coordenava e trabalhávamos na versão portuguesa de uma enciclopédia didáctica. Feita a tradução e introduzidos textos que procuravam adequar os conteúdos ao nosso sistema de Ensino, por aqueles anos com modificações frequentes – o Professor corrigia erros do original ou da tradução. Tinha uma opinião desfavorável sobre a utilidade da obra. Mas diga-se que foi um êxito de vendas. Reuníamos uma manhã por semana. Naquele dia, como era hábito, terminado o trabalho, fomos almoçar ao «Polícia». O Professor notara durante a manhã que eu estava preocupado e insistiu em que lhe confiasse o motivo. Muito instado, contei. Após Abril de 74, era “reacionário” pagar impostos. Agora, fora ameaçado com penhora de bens – a dívida ao Fisco rondava os dez contos, mas com a coima ultrapassava a centena – muito dinheiro na altura. À tarde telefonou-me: - «Carlos, resolvo-lhe o problema - talvez não possa emprestar tudo …». Emocionado, quase não consegui responder. Recusei, e agradeci com palavras de circunstância.

Recordo o rigor com que abordava as questões científicas. Irritava-o as metáforas que atribuíam qualidades ou defeitos humanos aos animais. Uma vez, lembrei-lhe a reflexão de Fernando Pessoa de quem eramos devotos leitores, segundo a qual o homem tem de aprender tudo, enquanto os animais «sabem o que precisam saber». Tomou nota. Costumava dizer: «As galinhas não são estúpidas; têm a inteligência de que necessitam para sobreviver». Como diz Maria Estela Guedes numa excelente biografia, preocupava-se com o facto de o discurso biológico transportar conceitos da esfera zoológica para a antropológica e vice-versa. Abusivo e acientífico, na sua opinião. 

Sacarrão não perdia nunca a oportunidade de temperar o discurso com uma nota de ironia. Com as suas reflexões, poder-se-ia escrever um «ensaio sobre a surdez». Sou um pouco surdo. Recomendou-me: «Não compre o maldito aparelho! Nunca tive problemas por ser surdo – todos os meus problemas, tive-os por ouvir bem demais». Morava em Campo de Ourique. No café «A Tentadora», na Ferreira Borges, uma manhã encontrou dois surdos famosos: António José Saraiva, um morador, e Óscar Lopes, na altura, presidente da Associação Portuguesa de Escritores que, quando vinha a Lisboa, ficava em casa do amigo. Saraiva abandonara o PCP em 1962, enquanto Óscar Lopes, naquela altura membro do comité central, foi militante até morrer. As amistosas discussões de natureza ideológica eram prolongadas e ricas em finos argumentos vindos de ambos os lados, mas nunca chegando a acordo – Sacarrão que os escutava, comentava - «literalmente um diálogo de surdos». Contava também como por vezes ao chegar a casa o ruído se lhe tornava doloroso – D. Maria Manuela, a esposa, escutando música na sala, a criada a contas com a telenovela na cozinha, o neto com o seu heavy metal no quarto… - o inferno! Tirava o aparelho e entrava numa ilha de silêncio cercada pelo oceano das suas cogitações. O paraíso, sintetizava. Adorava o neto – dizia: «Os netos são o melhor que nos acontece. O meu neto ensina-me imenso e ajuda-me a compreender o que vai acontecendo – obriga-me a fazer uma reciclagem».

O seu ateísmo convicto criticava sobretudo o carácter conformista e castrador do catolicismo. Não sei se o axioma «tudo o que é agradável ou é imoral ou faz mal à saúde» que muitas vezes lhe ouvi, era criação sua. O elogio da autorrepressão e da pobreza irritavam-no. Explicava a riqueza dos norte-americanos e a pobreza dos centro e sul-americanos, pelas matrizes coloniais de uns e outros. No Norte, onde prevalecera a Reforma, a religião impunha que era condenável um homem não prover as necessidades da sua família. No Sul, colonizado por católicos, a pobreza constituía virtude - «dos pobres será o reino dos céus».

Não sendo de militâncias partidárias e evitando envolvimentos políticos, tinha convicções profundas. Um dia, absorto ante um quadro, numa exposição de pintura na Galeria 111, do Campo Grande, ouviu um tropel de passos e um rumor de sussurros que se aproximava. Uma voz conhecida disse: - «Olha, o meu querido professor!» Voltou-se. Diante dele, estava o presidente da República, Mário Soares. Na verdade, Germano Sacarrão fora professor de Mário Soares no Colégio Moderno. Por questões políticas, quando veio da Suíça, onde, após a licenciatura e com bolsas do Instituto de Alta Cultura, estagiou entre 1938 e 1943, não lhe foi dada colocação no ensino oficial – nem na Universidade, nem sequer no Secundário. Generosamente, João Soares deu-lhe guarida no seu Colégio Moderno. Sacarrão nunca esqueceu esse gesto solidário. Agora, a comitiva do presidente ali estava, respeitosa e sorridente, esperando a sua reacção. Soares abraçou-o e repetiu: - O meu querido professor! – Então, Sacarrão, voltando-se para a comitiva, esclareceu: - «De Física! Professor de Física!» – E, perante os sorrisos, correspondeu ao abraço do seu antigo aluno: - «Muito esperto e inteligente, mas um cábula», dizia Sacarrão, que mantinha uma grande estima por Soares, embora não apreciasse a sua prática política. 

Em Outubro de 1992, o Professor telefonou propondo um almoço. Mas eu estava de saída para Barcelona de onde seguiria para Paris e fiquei de lhe ligar quando voltasse. Fez um comentário - «Pois é, o Carlos agora anda pelas galáxias…». – aludia à aquisição da Salvat pelo tentacular grupo de  Jean-Luc Lagardère o empresário francês, fundador de um dos maiores conglomerados empresariais europeus, com intervenção em áreas como a aviação – Airbus, caças Mirage, tecnologia aeroespacial e  equipamentos de defesa, a Matra (famosa pela Fórmula 1), até à área editorial, a Hachette entre outras. Em 1988 a Hachette absorvera a Salvat e em 1992 houve grandes transformações – articulando a editora catalã com a TV Guide Francesa, a Elle, o canal  Tele 7 Jours… Todo o sector dos media passava a estar coordenado em conjunto e eu e o meu colega Luís Rocha, o homem responsável pelo sector administrativo em Portugal,  íamos ser inteirados dessas transformações. E quando regressei dias depois, deram-me a notícia. O Professor morrera. Não descrevo a tristeza que me tomou. É indizível. Sem as suas frases de uma ironia inteligente, os seus axiomas, o mundo nunca mais seria o mesmo. Nunca esquecerei a sua generosa oferta de me emprestar dinheiro para regularizar a situação fiscal e que transformou a grande admiração e respeito numa grande amizade. Quando lhe contei, como quando o papa veio a Portugal em 1982, fiz um requerimento e fui amnistiado – só pagando os impostos em dívida. Comentou - «ora aí está um milagre». 

Quando na mais elevada magistratura da Nação o desprezo pela cultura é exibido com arrogante orgulho, percebe-se que pessoas como o Professor Sacarrão apenas sejam conhecidos pela comunidade científica. Não só atingiu uma incomum dimensão intelectual, como criou um escol de discípulos brilhantes que honram a Universidade, alguns dos quais tive o privilégio de conhecer, tais como os Professores Doutores Carlos Almaça, com o qual preparei «A Fauna», de Félix Rodriguez de la Fuente, com Luís Saldanha, que fez a revisão científica de uma obra de Jacques-Yves Cousteau, Vítor Almada, meu vizinho num bairro da Parede… a minha grande amiga Clara Queiroz, pessoas desta casa, Professores cuja elevada craveira científica constitui a implícita confirmação de que Germano Sacarrão atingiu uma dimensão que justificaria alguma gratidão por parte dos seus compatriotas. Nada tenho contra o facto de Amália e Eusébio estarem no Panteão Nacional. Não defendo sequer a ideia de Germano Sacarrão lhes ir fazer companhia (o que ele se riria de tal hipótese). Mas é chocante que um homem como ele esteja votado ao esquecimento. Um homem de cuja estatura científica outros certamente aqui se terão ocupado Eu só quis lembrar o universo fraterno que existia naquele coração que subitamente parou numa rua de Campo de Ourique na manhã de 22 de Outubro de 1992. 

O grande coração do meu amigo Germano Sacarrão.

 
 
 
 
G.F. Sacarrão no Triplov
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ISSN 2182-147X
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Maria Estela Guedes
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