Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências
Revista TriploV de Artes, Letras & Ciências .
NS . nº 53 . agosto-setembro 2015 . Índice


 
 

ARMANDO NASCIMENTO ROSA

Partida 

ou 

A MULHER SEM MEDO 

Metadrama em verso livre

(Lisboa, 2015)

Armando Nascimento Rosa (Évora, 1966), dramaturgo, cantor e ensaísta, é autor de trinta peças de teatro, algumas delas premiadas e/ou traduzidas em sete línguas. Doutorado em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa, é professor na Escola Superior de Teatro e Cinema, do Instituto Politécnico de Lisboa, desde 1998. Desenvolve o projecto musical O Piano em Pessoa, em parceria com António Neves da Silva, estreado em Barcelona em 2012.

«Vivia de, por e para ele. Chegara a ter receio daquela obsessão política que me dominava. Curioso: o general Humberto Delgado é aviador – a minha carreira se fosse homem.» 

Arajaryr Campos, Uma Brasileira contra Salazar 

 

«Jamais imaginei que um dia nossos destinos se cruzassem. Sinto-me triste de ter visto tardiamente a grandeza da luta dos povos contra a ditadura, um ideal que me privou da presença materna ainda muito menina. 

Rosângela Castro, «Carta a Iva Delgado»

 

FIGURAS CÉNICAS 

ACTRIZ 1: Intérprete de Arajaryr Campos, secretária e companheira do general Humberto Delgado, cidadã brasileira, assassinada com ele em 13 de fevereiro de 1965, em Espanha (Villanueva del Fresno), pela polícia política de Salazar. 

ACTRIZ 2: Intérprete de Rosângela Castro, filha de Arajaryr, natural do Rio de Janeiro, como sua mãe. 

ACTOR: Intérprete do Corifeu  sem coro, que se desdobra ainda nas vozes do pai de Rosângela e do general Humberto Delgado. 

Duas actrizes e um actor coabitam no espaço cénico.

 

ACTRIZ 1

O que custa mesmo é o sinal da partida,

o momento de arrancar.

Sentes o impulso inadiável de partir, de seguir viagem,

mas a dor de te separares de alguém que precisa de ti

não te larga.

E então quando esse alguém é uma criança,

uma criança tua,

que vai chorar de tristeza ao ver-te partir,

com a carita colada à parede de vidro transparente

do aeroporto.

Tu sabes que ela vai chorar

porque ela já chora quando tu lhe dás o último abraço

da despedida.

E esse rosto molhado não te sai do cérebro

na hora nervosa da descolagem.

O avião não espera.

E tu choras também,

já sentada a olhar para a língua gestual das hospedeiras,

que te falam das máscaras de oxigénio

e te alertam para a necessidade de as ajustar primeiro no nariz da criança que te acompanha,

em caso de despressurização.

Mas tu não trouxeste criança nenhuma.

Não a podias trazer para a missão perigosa que abraçaste.

Imaginas, em terra, a tua filha,

sozinha com os avós,

a acenar aos soluços para este pássaro metálico

que lhe leva a mãe para outro continente.

O que custa mesmo, acreditem, é o sinal da partida.

 

ACTRIZ 2

A tua fala é um bom começo

 

ACTRIZ 1

É sempre difícil escolher o ponto de partida.

 

ACTRIZ 2

Também acho.

Mas aqui não há outra solução.

A mãe que se separa da filha fica partida em duas.

 

ACTRIZ 1

Agrada-me viver esta história, sabes?

É intensa e dilacerante.

 

ACTRIZ 2

Tudo o que dizemos pode e deve ser confundido

com factos reais que sucederam.

 

ACTRIZ 1

Fiquei tão entusiasmada quando o/a (nome próprio de quem escreveu o texto ou de quem o encena) me convidou

para integrar o espectáculo.

Falou-me pelo telefone

passava já das duas da manhã.

 

ACTRIZ 2

É próprio do/a (nome próprio de quem encena ou produz o espectáculo) telefonar para casa das pessoas

fora de horas.

Faz da noite dia.

Já estou acostumada.

 

ACTOR

Aposto que estavam ambas a falar de mim!

 

ACTRIZ 1:

Duas mulheres que conversam sozinhas

não quer dizer que estejam a falar de um homem ausente.

 

ACTOR

Quis ser engraçado

mas não resultou.

 

ACTRIZ 1

O humor não é o teu forte.

E isto não é uma comédia.

 

ACTOR

Eu sei, colega,

Tens razão.

 

ACTRIZ 2

Mas já que apareceste agora,

aproveita a ocasião e apresenta-nos.

É a função para que foste convocado.

O público precisa conhecer-nos.

Neste tempo do teatro,

que fazemos nosso.

Tempo de actores que são rapsodos,

rapsodos actores,

rapsodos dramáticos.

Palavras de cena com figuras épicas

de trágico fôlego

e vocação lírica.

No tempo de agora,

que peça é a nossa?

Fala, Corifeu!

 

ACTOR/CORIFEU SEM CORO

As peças com coro pertencem ao passado.

Hoje os coros são mudos,

mas eu falo.

Não deram nome próprio à figura que interpreto.

E também não respondo pelo nome civil do actor

que está aqui

diante de vós, como é próprio dos actores,

exposto e escondido

pela personagem:

a minha é ser o corifeu.

Um corifeu sozinho,

um corifeu sem coro.

Mas hei-de ser outras figuras

que a acção exija.

Assim se poupa no elenco.

Os tempos estão difíceis

para a vida e para a arte.

Não são tempos de vacas magras,

são de vacas esqueléticas, anorécticas,

num pasto em deserto acelerado.

Mas não venho falar-vos do impacto ambiental da pecuária

nem maçar-vos com a crise financeira

e a dívida pública.

Para isso já basta os dias que nos cabem em sorte

ou falta dela.

Temos aqui duas mulheres.

A filha chama-se Rosângela.

A mãe é mulher com nome estranho,

um nome de índio tropical,

um belo nome:

Arajaryr.

Apetece repetir quando o dizemos em voz alta,

como é próprio do teatro:

- Arajaryr!

Mãe e filha nasceram no Brasil, Rio de Janeiro.

Duas actrizes portuguesas fazem hoje os seus papéis,

por isso o português que falam não tem o açúcar musical

do Novo Mundo.

Tudo começou um dia numa festa carioca

de família.

Através da sua melhor amiga,

Arajaryr conhece um homem fora do comum,

um general português no exílio que transforma a sua vida

e apressa a sua morte,

sem ele o querer,

sem ela o saber,

embora o adivinhe.

A ele chamam-lhe o general sem medo,

pela sua coragem como ninguém teve

em enfrentar o ditador.

Ela há-de ser a mulher sem medo,

por decidir acompanhá-lo

com convicção

e entusiasmo genuíno.

 

ACTRIZ 1 / ARAJARYR

Corifeu sem coro, tu já estás a falar por mim!

Não vais contar dessa maneira

a minha história.

Se assim for, eu vou-me embora.

Não estou cá a fazer nada.

 

ACTRIZ 2 / ROSÂNGELA

Nem eu, Corifeu.

Se queres fazer monólogo,

tens a cena só para ti,

e eu vou à minha vida.

 

ACTOR/CORIFEU SEM CORO

Pronto, pronto, eu já me calo.

Não se zanguem comigo, por favor.

O pior para um actor

é ter os colegas em cena contra ele.

É vosso o gesto e a palavra.

Rosângela chega de viagem

e fala para a mãe

neste teatro.

 

ROSÂNGELA

Tu estás à minha espera já em cena

e eu venho de viagem.

Talvez traga malas nas mãos,

ou talvez não.

Venho carregada de perguntas, mãe.

Este é um encontro impossível.

Tu morreste tinha eu sete anos de idade.

Daí este teatro, este espectáculo.

As actrizes que somos

tornaram possível o nosso encontro de hoje.

A mãe e a filha separadas

pela tua vida e pela tua morte

voltam a juntar-se

num Abril improvável.

Já tudo aconteceu

mas nem tudo é sabido

sobre o teu assassinato.

Faltava haver o nosso encontro.

Em teatro não existe o impossível.

 

CORIFEU SEM CORO

Diz-lhe, Arajaryr

Diz à tua filha o que te fez deixá-la no Brasil

para partires à aventura.

Rosângela precisa de ouvir da tua boca

as razões de uma escolha,

a tua escolha.

 

ROSÂNGELA

Sim, Corifeu.

Mas eu não venho aqui

para julgar a minha mãe.

Nem sou juíza para condená-la

em tribunal de família.

Quero apenas conhecê-la melhor,

já que tão cedo fiquei sem a sua presença

no palco dos vivos.

A criança que eu era não podia ainda

perceber o que movia esta mulher

que me pôs no mundo.

Nem a família à minha volta a entendia.

Os meus avós seus pais temiam sempre por ela.

Por que havia de lhes ter nascido uma filha com tanta paixão?

- diziam eles -tanto idealismo, tanto espírito de missão?

Arajaryr queria libertar Portugal da ditadura

e deixara a filha presa à mãe ausente.

É muito mais difícil para uma mulher e mãe ser heroína política.

Vim a percebê-lo muitos anos mais tarde.

E o meu pai não ajudava nada.

Ressentido, com o azedume de homem trocado por outro,

sempre a deitar para cima de ti

toda a culpa do mundo.

A distorcer a tua imagem nos meus olhos de menina.

E tu estavas longe.

Não podias defender-te.

.

CORIFEU/ PAI DE ROSÂNGELA

A tua mãe fugiu com outro e abandonou-te.

Abandonou-nos, a ti e a mim.

Eu não preciso dela, mas tu precisas.

Os filhos precisam de ter mãe.

Virou costas à cidade onde nasceu.

E deixou o Brasil para seguir esse velho militar

e as suas conspirações delirantes.

A loucura desse português somada à loucura dela

vai ditar o fim dos dois.

Filha, grava o que te digo nessa tua cabecinha:

a tua mãe já nunca mais volta para nós.

Vai acabar os dias do outro lado do mar.

 

ROSÂNGELA

Eu não queria perceber o meu pai,

com as suas palavras de susto.

E não o percebia mesmo.

Era jovem demais.

E não era essa a imagem que tu me davas de ti, mãe,

Nas cartas e postais que me enviavas e que a avó me lia,

emocionada.

Eu gostava tanto de a ouvir ler o que escrevias para mim.

E depois eu ditava-lhe as respostas para ela enviar para ti.

Tinhas sempre endereços diferentes.

Mas a seguir sentia-me sozinha.

Chorava à noite com saudades tuas.

E também eu te culpei por essa solidão, mãe.

Fui injusta, eu sei,

mas culpei-te, por me teres deixado aqui,

uma órfã com a mãe viva noutro continente.

 

ARAJARYR

O teu pai fez guerrilha contigo.

Mentiu-te, omitindo o passado.

Pois quando eu saí do Brasil com o Humberto,

já estava divorciada do teu pai.

Eu não vivia mais com ele.

E mesmo que houvesse continuado em meu país,

nunca voltaríamos a ser de novo um casal.

 

ROSÂNGELA

O pai acusava-te de teres fugido de nós

na companhia de um homem casado,

avô de netos.

 

 

ARAJARYR

Isso é verdade e é mentira ao mesmo tempo.

Os caminhos da vida afastaram o general

da sua família.

O fascismo lusitano obrigou-o a exilar-se

para escapar à prisão, à tortura e à morte.

Morto ou preso, Humberto nada podia fazer pelo país.

Ele candidatou-se a presidente de Portugal em 58.

Afrontou o ditador dizendo que o demitia assim que fosse eleito.

Recebia banhos de multidão em todo o lado onde ia.

Era espantoso.

Não mostrava medo de ser morto pelas balas

de algum atirador contratado.

Tenho pena de não ter testemunhado essas jornadas

por esse pobre Portugal que nele viu

a promessa possível

de um futuro diferente.

As portas dos lugares cobertos, pertença do estado,

fechavam-se para o receber.

Melhor para ele.

Pois nenhum desses lugares poderia jamais albergar

os milhares de apoiantes que acorriam a saudá-lo.

Oceanos de gente como o país acabrunhado

nunca havia visto.

Só a rua

a céu aberto

e as praças das cidades

podiam alojar tanta gente junta

Tu vês isso, filha, nas fotografias que ficaram

dessa campanha que sacudiu Portugal de lés a lés.

Quando eu perguntava ao Humberto se nunca sentiu pavor

em ser baleado quando falava às multidões,

nas janelas, nas varandas, empoleirado nos automóveis,

ele apenas ria e dizia-me:

 

CORIFEU/ HUMBERTO

Ó Arajaryr.

Eu sou piloto aviador.

E o aviador convive a toda a hora com o perigo

da morte iminente,

mal levanta voo.

Os aviões não eram o que são hoje

quando eu comecei.

E mesmo agora, as máquinas são falíveis

e todo o céu é traiçoeiro,

mesmo sem nuvens no horizonte.

As leis da gravidade são implacáveis.

E a atmosfera calma transforma-se de repente

em tempestade aérea.

Quando falei de peito aberto frente ao povo,

no país de Salazar,

estava a cruzar os ares como dantes

no meu jeito intrépido.

Mas o avião era feito de palavras e de ideias

e o motor os meus pulmões,

para darem voz audível àquilo que eu clamava

com toda a energia que me habita

e faz mover as hélices da esperança.

 

ARAJARYR

Humberto era assim, filha,

tal como eu o vi pelos meus olhos,

desde o primeiro dia, nessa festa carioca

onde nos conhecemos:

um herói destemido e sem idade,

que vinha libertar uma terra triste.

Mas o resultado das eleições foi uma fraude.

Pois tudo indicava que seria ele o vencedor.

 

ROSÂNGELA

E por que não venceu ele?

Se a maioria das pessoas estava do seu lado!?

Como são as coisas da vida, mãe,

demasiado injustas.

Se ele tivesse sido eleito presidente nessa altura,

nunca viria exilado para o Brasil.

Nunca te teria conhecido nessa festa.

Nunca terias partido com ele.

Nunca me havias de deixar solitária.

Talvez morresses velhinha de morte natural

no século XXI.

Ou talvez ainda estivesses viva,

com quase cem anos,

aqui à minha beira,

e a beber água de coco.

A longevidade é mais amiga das mulheres.

 

ARAJARYR

Rosângela, minha filha,

as eleições num país em ditadura são uma farsa.

A contagem dos votos foi falsificada.

Humberto perdeu oficialmente as eleições.

E quem ganhou foi o candidato escolhido por Salazar.

Depois disto, a liberdade do Humberto estava a prazo.

Ele não podia estar parado e conspirava.

E depressa percebeu que a PIDE o viria prender a sua casa,

mais dia menos dia.

Antes que isso acontecesse,

 

 

CORIFEU/HUMBERTO

refugiei-me em Lisboa na embaixada do Brasil,

Foi a minha mulher, a Maria Iva, que me convenceu.

Ela temia por mim, e dizia-me:

O Brasil não te vai virar as costas.

É um filho gigante do pequeno Portugal.

E tu és o presidente a quem roubaram a república.

Precisas de te acolher em solo seguro.

E consta-me que o embaixador é um homem íntegro.

Eu segui o conselho dela.

Tornei-me refugiado na capital do meu país.

Por suprema ironia, a embaixada do Brasil

ficava mesmo ao lado da sede da PIDE.

Do meu quarto, no silêncio da noite, através das paredes,

eu conseguia ouvir os gritos de horror dos presos

a serem torturados.

Como podia eu dormir tranquilo

perante aquele sofrimento?

Esperei meses ali fechado na embaixada.

Mas o Novo Mundo acabou por conceder-me asilo político,

graças ao embaixador Álvaro Lins,

que lutou por mim contra os ministros dos dois países

e saiu vencedor.

Ficámos amigos incondicionais.

 

ARAJARYR

E Humberto voou para a América do Sul,

mas veio sozinho.

A esposa juntar-se-ia a ele durante algum tempo,

na cidade maravilhosa,

para logo a seguir regressar a Lisboa,

onde viviam as duas filhas, o filho e os netos que nasciam.

Mas o Humberto não era homem para solidões monásticas.

Precisava de uma mulher a seu lado.

Uma mulher de palavra e fluente nas palavras

- eu falava várias línguas.

Uma parceira que partilhasse os seus anseios

de combatente.

Os seus sonhos de futuro para o país, para o mundo.

E depois de trabalhar por oito meses como sua secretária,

percebi que essa mulher era eu:

Arajaryr – uma brasileira contra Salazar,

este foi o título das minhas memórias,

escritas numa idade jovem

dedicadas a ti, filha, quando as pudesses ler,

e para todos os demais no futuro,

como se eu soubesse

que não iria viver para além dessa idade,

tal era o terreno perigoso que pisava,

ao abraçar a causa do general sem medo.

 

ROSÂNGELA

Esse general deu sentido à tua vida.

Alistaste-te na sua guerra.

Foste o seu lugar-tenente.

Fizeste sua a missão dele.

Mas se Humberto tivesse derrubado o ditador,

como ele tanto queria,

e viesse a ser o primeiro presidente

da democracia portuguesa,

achas que faria de ti a primeira-dama?

Não continuarias somente a ser a outra, a concubina,

a secretária pessoal do general vitorioso?

 

ARAJARYR

Infelizmente, filha, Humberto foi morto

e eu com ele.

Não tivemos vida para que esse problema se pusesse.

Fomos ambos assassinados pela polícia de Salazar,

bem perto da fronteira de Espanha.

em Villanueva del Fresno, província de Badajoz.

A PIDE armou-nos uma cilada suja,

atraídos para um logro,

apanhados por essa corja

como coelhos indefesos

na rede dos carrascos.

 

CORIFEU SEM CORO

Fizeram finalmente um filme em Portugal,

sobre o duplo homicídio onde morreste.

Operação Outono, assim se chama,

assim a PIDE chamou à operação assassina.

Expõe ao detalhe a emboscada que vos roubou a vida.

A tua personagem parece-se contigo.

A actriz usa os teus óculos de aros grossos, como era moda então,

e o teu penteado anos sessenta.

Mas trataram-te mal no filme, Arajaryr.

Quase não tens falas

e apenas serves para servir café ao general

e às suas visitas de conspiração política.

Nem sequer podes mostrar a inteligência que era tua.

És somente um acessório feminino e mudo,

a gueixa discreta e burocrática

do general malogrado.

Nem cenas ali há de intimidade,

para te dar destaque erótico.

És mesmo só a secretária por ofício.

Ah! Já me esquecia!

Também penduras os casacos às visitas, no filme,

quando entram em casa.

Já o general é interpretado por um actor estadunidense

que não fala um boi de português.

E por isso é dobrado pela voz de outro fulano

do princípio ao fim do filme.

Soa estranho.

Mas valeu ter sido feito.

Tem bons desempenhos num elenco numeroso.

E o cinema é mais portátil que o teatro.

Mete-se numa pendrive e lá vai ele.

Chega a mais gente do que nós, minhas colegas.

E nós precisamos muito de memória vigorosa

nestes tempos ciberdominados,

cibercontrolados,

ciberdependentes.

 

ARAJARYR

Perdidos, perdidos,

caçados na armadilha

dos humanos chacais

em campo aberto.

Humberto ao percebê-lo puxa do revólver.

Agarram-lhe no pulso para desviar os tiros.

Cinco balas atingem o vazio.

Depois é o general o atingido.

Tento ir em vão ao seu auxílio.

Que posso eu fazer contra os lacaios da morte?

Perco um sapato na corrida inglória,

um sapato que um deles há-de atirar mais tarde

para um ribeiro do Alentejo.

Grito de horror e tapam-me a boca.

Agarram-me enquanto vejo Humberto a receber golpes mortais,

na fronte e no tronco,

no maxilar que se fragmenta,

e ele cambaleia e tomba

e a seguir na nuca,

fracturada

com o embate mortal de coronha metálica

da pistola sem balas.

A vida cessa no corpo de Humberto.

O sangue dele ensopa-me o vestido.

O meu irá juntar-se ao dele.

Partida, de partida,

estou partida.

Sou espancada.

Atiram-me violentamente para o chão.

Sou estrangulada com uma barra metálica

que me destrói as quatro vértebras do pescoço.

E jamais serão encontradas,

pasto de algum cão do mato.

A tua imagem, filha,

é a última que conservo na mente.

Dizem que se assiste ao filme da vida 

no instante em que se morre.

És tu que eu vejo quando os olhos me morrem.

Triste de me separar de ti

tão brutalmente cedo.

Por muito que eu ame Humberto,

és tu, minha filha,

a protagonista do meu último filme.

 

ROSÂNGELA

Há meio século que isto aconteceu:

a cilada sangrenta que vos roubou a vida.

Humberto e Arajaryr deixam o exílio da Argélia

onde então estavam.

E partem iludidos por um plano assassino.

A partida derradeira.

A minha mãe escreve-me o seu último postal,

com o carimbo espanhol de Badajoz,

13 de fevereiro de 65.

O dia em que foi morta.

Esse postal que a minha avó não largava das mãos,

tomada de angústia, a  incerteza

de lhe haverem  matado a filha

algures no extremo ocidental

da distante Europa.

Como se o postal guardasse ainda o sopro vital

da mão amorosa que o havia escrito

com tantas saudades nossas.

13 de fevereiro.

Sempre eu haveria de detestar o número treze.

 

ARAJARYR

Argel, Casablanca, Rabat, Tetuão,

Ceuta, Algeciras, Sevilha, Badajoz.

Argel, Casablanca, Rabat, Tetuão,

Ceuta, Algeciras, Sevilha, Badajoz.

Argel, Casablanca, Rabat, Tetuão,

Ceuta, Algeciras, Sevilha, Badajoz.

As escalas de avião que nos levam ao lugar da morte.

A PIDE montou-nos um cenário completo à nossa volta,

e nós somos engolidos por ele ao fim de dois anos.

Havia um falso professor português em Itália,

que dizia ter contactos com gente do exército luso.

Militares dispostos a fazer a revolução

para derrubar a ditadura

liderados por Humberto.

Marcaram-nos encontro em Espanha,

junto ao posto fronteiriço

onde iria ter connosco

um desses aliados de revolta.

Camino de Los Malos Pasos

Camino de los Malos Pasos.

Camino de Los Malos Pasos

Devíamos ter atendido ao nome de um lugar

assim chamado.

Devíamos ter receado que esses desconhecidos

poderiam ser os enviados

do nosso maior inimigo.

E apenas diziam, por isso,

aquilo que nós queríamos tanto ouvir.

Mas Humberto era sem medo e queria acreditar na boa nova

que lhe traziam esses seus compatriotas,

seus executores.

O entusiasmo dele,

por julgar próxima

a revolução ansiada,

não deixou que suspeita alguma viesse

turvar-lhe a confiança. 

 

ROSÂNGELA

Mas tu pressentias algo estranho.

Tu não estavas confiante na veracidade desse plano.

Acompanhaste o Humberto, temerária,

até àquele lugar,

descampado e ermo.

Mas havia uma descrença a assaltar-te, mãe.

Eu sei que havia.

 

ARAJARYR

Como é que sabes isso, filha?

Tu não estavas lá.

E eu nada podia escrever sobre uma operação secreta

num singelo postal

com as paisagens da Extremadura.

 

ROSÂNGELA

Não foi pelo teu postal que eu o soube.

Mas sim num texto de sentida homenagem,

escrito por um exilado em Londres, vosso amigo,

cronista da BBC,

o António de Figueiredo,

que foi delegado do general para os assuntos africanos.

Ele evoca-te a ti e ao Humberto com palavras nobres

que me fizeram chorar muito quando as li

a primeira vez.

Vamos ler aqui um naco dessa prosa.

Eu sei que o teatro não é uma conferência,

nem uma lição de História,

nem caixa jornalística.

Mas eu acho que devemos ler agora

um pouco do que ele escreveu,

numa idade anciã.

O artigo foi incluído em anexo ao volume

das tuas memórias

publicadas pela filha de Humberto,

a Iva Delgado, onde eu descobri uma amiga,

uma cúmplice para a minha sede de memória tua.

Estão aqui as folhas.

Dividi o excerto por nós os três.

 

ACTRIZ 1

Não acho mal pensada

a ideia dramatúrgica

da tua personagem.

Hoje em dia é comum vermos actores de livro aberto,

rapsodos em alta voz

a ler simplesmente no espaço da cena.

Os protocolos do teatro são escritos em areia

que o nosso sopro move e modifica.

 

CORIFEU SEM CORO

Se vamos ler, devemos usar o microfone.

O teatro actual não passa sem o microfone.

Necessita amplificar as vozes

para que possam ser ouvidas para além do ruído

que nos rói as cabeças consumidas, consumistas.

As vozes precisam destas muletas sonoras,

para se fazerem ouvir

na multidão dos olhos desatentos

e dos dedos frenéticos

presos aos ecrãs pequenos

que nos ligam ao mundo

e nos desligam de nós mesmos.

Os microfones são a sombra funérea

das máscaras perdidas

do teatro antigo.

 

ACTRIZ 1

 (Leitura com microfone.)

«Por si só [Arajaryr] não seria temida como inimiga do regime. No entanto, a PIDE odiava a ideia de que Delgado não estava só e abandonado, e portanto odiava a corajosa brasileira que até troçara publicamente, num artigo, dos agentes daquela polícia que tinham sido “duas vezes ludibriados” [por ambos], à entrada e à saída de Portugal (…).

 

ACTRIZ 2

O próprio processo judicial comprova que se Delgado foi assassinado como o mais destacado inimigo do salazarismo, e hoje sabemos que também o era do regime franquista, Arajaryr foi assassinada porque se vivesse seria a mais temível testemunha do crime. Esta perversa certeza dos assassinos, quanto ao papel testemunhal de Arajaryr, é, afinal, o mais explícito reconhecimento da sua dedicação e força de carácter. Como história de amor na vida real, o sacrifício de Arajaryr transcende a esfera política e acrescenta à luta de Delgado a dimensão universal dos grandes dramas humanos. (…)

 

CORIFEU SEM CORO

A monstruosidade do crime e a impunidade de que se rodeou, antes e depois da Revolução do 25 de Abril de 1974, são aspectos que chocaram e chocam ainda os que se dedicam à defesa dos direitos humanos. O drama é tanto mais pungente quanto Arajaryr era mãe e deixou órfã uma menina de sete anos. E é tanto ou mais dramático quanto o que na literatura antiga ou moderna se escreve, pois não foi uma questão acidental, ou uma mera surtida policial.

 

ACTRIZ 1

A ‘operação Outono’ foi uma autêntica montagem de caça ao homem, crime premeditado pelos serviços do Estado português com grandes envolvimentos e gastos, tendo sido posteriormente montado não só o encobrimento a grande escala, por exemplo, com a destruição a maçarico dos automóveis envolvidos, como uma autêntica campanha que envolveu um outro assassínio – o de carácter – pelo denegrimento sistemático da figura do General Delgado.

 

ACTRIZ 2

Os factos aconteceram, não foram produto do acaso. As vítimas não foram apenas um general português e a sua secretária brasileira, mas todos aqueles que mantinham a esperança de ver derrubado o regime de Salazar, bem como todas as mulheres que como mães compreendem o que é matar-se uma jovem mãe. Foi uma tragédia que deve unir a memória dos povos português e brasileiro na luta comum pela dignidade humana.

 

CORIFEU SEM CORO

Fui amigo do General, admirei a sua coragem e grandeza que o tornaram um símbolo da liberdade, e conheci a infeliz Arajaryr cuja beleza moral e física era real. Para mim, ambos são figuras inesquecíveis da história contemporânea de Portugal e do Brasil.

Humberto Delgado foi com justiça trasladado para o Panteão Nacional. Mas Arajaryr Campos, tal como o anónimo “soldado desconhecido”, bem merece ser reconhecida como uma heroína esquecida da dedicação e abnegação femininas por um homem e por uma causa.»

 

ACTRIZ 2

António de Figueiredo. Excerto do artigo «O sorriso inteligente». In Arajaryr Campos. Uma brasileira contra Salazar. Edição de Iva Delgado. Lisboa: Livros Horizonte, 2006, páginas 155 e 156.

 

ACTRIZ 1

Acham que estamos a contribuir para isso?

 

CORIFEU SEM CORO

A contribuir para quê?

 

ACTRIZ 1

Para o triunfo da memória.

Para o reconhecimento póstumo de Arajaryr Campos.

Terá o nosso teatro a força de fazê-lo?

 

ACTRIZ 2

Creio que sim.

A memória do mundo passa também

pelo teatro de hoje

que fazemos juntos.

Caso contrário, não estaria aqui,

convosco,

com os espectadores que vieram

e tornaram possível

mais uma partida.

 

CORIFEU SEM CORO

Humberto acreditava no teatro.

O primeiro confronto seu

com os poderes do Estado Novo,

de que ele fez parte,

foi projectado numa peça de teatro.

Um enredo aeronáutico

de romance e espionagem

escondia o seu conflito pessoal

com a hierarquia.

Estreou em Lisboa no Teatro da Trindade,

na véspera de Natal de 42.

Foi a única peça que escreveu.

O texto permanece inédito.

Chamava-se simplesmente:

Asas.

 

ACTRIZ 1/ ARAJARYR

Humberto quis dar-nos asas.

Foi um bravo Prometeu com Ícaro à mistura,

sem Hércules algum que o salvasse no Cáucaso.

E para nós, filha,

haverá algum mito antigo

que se compare connosco?

 

ACTRIZ 2 / ROSÂNGELA

Talvez o mito de Deméter e Perséfone.

Mas somos o inverso dele.

A deusa mãe Deméter

e a deusa filha, Perséfone.

No mito grego, é a filha que é roubada à mãe

pelo deus dos mortos que dela se enamora.

Aqui é a mãe que foi raptada à filha.

Mas no mito antigo a filha regressa sempre

para junto da mãe na Primavera.

E deixa o marido sozinho no reino dos mortos.

Que Primavera resta para nós, mãe?

 

ACTRIZ 1/ ARAJARYR

A Primavera deste instante.

Foi o que tentámos fazer na meia hora

deste espaço habitado.

Uma imitação da Primavera.

A reunião de mãe e filha

no teatro,

onde mortos e vivos se confundem

na ficção que engana o tempo,

imitando a duração dele.

E o teatro repete a invenção da vida

num tempo além do tempo,

o tempo do espectáculo.

 

CORIFEU SEM CORO

E neste momento,

é necessário qualquer coisa

semelhante a um epílogo.

Rosângela, queres tu dizer as últimas palavras?

 

ROSÂNGELA

Eu prefiro que seja a minha mãe a dizê-las.

Esta peça é mais dela do que minha.

Eu estou aqui por ser a sua filha.

Fala tu, Arajaryr!

 

ARAJARYR

O nosso assassinato

foi o princípio do fim de Salazar.

Um fim vagaroso.

Havia algo de sinistro no seu rosto,

semelhante a um vampiro.

Basta ver as fotos.

Eu trouxe algumas.

E os vampiros custam a morrer

porque se nutrem do sangue dos vivos.

De vivos como eu e o Humberto.

Os nossos cadáveres são descobertos

por jovens extremenhos

e exumados a 25 de Abril de 65.

Nossos restos mortais mal enterrados

anunciavam sem sabê-lo

uma data luminosa.

Nove anos exactos havia este globo de girar

até à Revolução dos Cravos,

a que já não assistimos,

mas de que fomos precursores.

Três anos passaram sobre a nossa morte.

E em manhã de Agosto,

o velho ditador cai da cadeira

quando lê o jornal.

O hematoma na nuca,

formado pela queda,

rouba-lhe as faculdades,

torna-o em fantoche do poder

e mata-o dois anos depois.

É curioso isto, vejam,

a macabra coincidência,

digna de uma dessas séries televisivas

de investigação criminal.

O golpe mortal dos homicidas,

que tiraram a vida a Humberto

foi a coronhada na nuca.

E agora é também na nuca

que Salazar é ferido com o golpe da queda.

Eu gosto de imaginar que foram os nossos dois fantasmas,

o meu e o de Humberto,

a tirar-lhe a cadeira

sob o sol de Agosto.

 
 
 
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