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REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
Nova Série | 2011 | Número 10
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Joseph Beuys [1921-1986]
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é um dos mestres da Alemanha
nós te bebemos de noite e de manhã nós bebemos bebemos
a morte é um dos mestres da Alemanha seu olho é azul
acerta-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
ele atiça seus mastins sobre nós e sonha a morte é um dos mestres da
Alemanha
eu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita
Fuga da Morte, Paul Celan |
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| DIREÇÃO |
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Maria Estela Guedes |
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| Índice de Autores |
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SÓNIA PINA
Joseph
Beuys:
A Arte como Compressa |
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Segundo Theodor W. Adorno, "Nach Auschwitz ein
Gedicht zu schreiben ist barbarisch”: é bárbaro escrever um poema depois
de Auschwitz.
Adorno evoca aqui o sentimento geral de impotência que se instalou
depois do horror provocado pela tomada de consciência da devassidão da
guerra, pela descoberta dos fornos do Holocausto e de uma crueldade
humana sem limites.
Esta época sangrenta marcou inexoravelmente a arte
alemã moderna, surtindo efeito na geografia simbólica da época,
tornando-se a incomunicabilidade e a mudez os substitutos da verdade.
Decorrente da impossibilidade simbólica de encontrar sentido para a
sensação de absurdo existencial que se instalou, teve lugar uma profunda
vacuidade que influenciará indelevelmente o estado da cultura alemã.
Este momento histórico imprimirá a sua marca na Arte alemã, à qual se
designará depois a Arte do Pós-Guerra e que incorporará, no essencial,
duas facetas: uma fúnebre e outra salvítica; tal como o refere Paul
Celan no seu poema "Todesfuge", ou "Fuga da Morte" de 1945:
“[…] um estado de morte assolou a Alemanha, acertando-lhe em cheio e
fatalmente. Um estado de morte que vem a caracterizar a tessitura da
arte alemã deste período.”
Joseph Beuys surge aqui, neste quadro, como o artista
paradigmático. |
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A obra de Joseph Beuys é central e
significativa nesta linha de análise, na medida em que cada uma
das suas peças configura uma estrutura simbólica complexa que
incorpora as suas noções utópicas de sociedade e de educação,
estando a sua trajectória artística associada ao seu projecto
pedagógico, social e político, onde os mitos desempenham um
papel fulcral .
O seu perfil multifacetado conduziu às várias tentativas de
definição da sua personalidade artística: será o xamã, o
pedagogo, o terapeuta, o pastor, ou o revolucionário? Ou ainda,
segundo Thierry de Duve, serão o monarca ou o vagabundo, o rei
ou o louco, a vítima e o redentor, os avatares bicéfalos do
artista? |
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Ora, segundo este autor, Beuys corporiza uma dupla
faceta, tal qual as duas faces de Janus: uma melancólica e a outra
salvítica; bipolaridade esta que se reflectirá no infatigável
proselitismo do artista e que se reflectirá na sua combatividade
política, na sua pedagogia alacre, no seu optimismo revolucionário ou
evolucionário e na sua propensão a assumir um papel de pastor,
eventualmente, resultante da empatia que este nutrirá por todas as
figuras anónimas e sacrificadas da humanidade . Está, desta forma,
latente na obra de Beuys uma certa recusa da História enquanto sintoma
civilizacional sendo o seu objectivo encontrar, através da arte, um
estado original que é condição da redenção.
É neste derradeiro passo para a afirmação da unidade, na sequência de um
último e lento processo de redenção, que reside a sua ruína e a sua
grandeza. Encontrando-se na sua própria experiência pessoal, traços
recorrentes de uma melancólica sobrevivência e a incorporação de uma
missão salvítica que constitui o pathos da sua práxis artística. |
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do phatos à “pathologia”: |
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Beuys em 1985 era um homem doente, pois na sequência
do acidente que sofreu na guerra, o seu corpo tornou-se a inscrição
singularizada da experiência colectiva alemã.
Na guerra da Crimeia sofreu um acidente grave,
incidente ao qual Delfim Dardo atribuiu a designação de “Episódio
Tártaro” , e que virá a desempenhar uma importância simbólica central em
toda a sua vida e obra.
De acordo com os registos biográficos disponíveis, antes de iniciar os
seus estudos em Medicina, Beuys é mobilizado pela Luftwaffe, primeiro
como radiotelegrafista e, mais tarde, como piloto bombardeiro ao serviço
da guerra. Quando em combate, o seu avião foi alcançado pelos antiaéreos
russos, mas terá conseguido chegar às linhas alemãs antes de cair. Ficou
gravemente ferido e o seu companheiro morreu. Moribundo, acabou por ser
encontrado por um grupo de tártaros nómadas que o levaram para o seu
acampamento, onde o untaram com gordura e o envolveram com uma manta de
feltro, alimentando-o com produtos lácteos e deixando-o imobilizado
durante vários dias em estado semiconsciente.
Esta história, ficcionada ou não, tem a importância de imprimir a marca
sacrificial em toda a sua obra artística. Sendo possível observar uma
densidade mística neste cruzamento entre experiência limite da morte e
da sobrevivência. Aspecto que se observa, nomeadamente, no tipo de
materiais que utiliza nas suas instalações e esculturas, como a gordura,
o feltro e outros materiais de natureza instável e informe;
convocando-se, no processo e nos materiais, este punctum salvítico
autobiográfico.
Nesta perspectiva, esta gramática plástica aglutina, por um lado,
elementos decorrentes da sua experiência pessoal da guerra ou a sua
ferida pessoal e, por outro lado, o desejo simbólico de (re)encontrar
para a vida e para a Humanidade algum senso de consistência, o que
eventualmente reflectirá a grande vertigem de Joseph Beuys.
A dor versus sobrevivência converte-se para Beuys
numa experiência pessoal essencial, cuja herança se manifesta pela luta
de reconhecimento, pela revivência da culpa e pela memória, estando
desta forma presente na sua obra a oscilação entre a ordem ou caos e o
horror e a harmonia dos opostos.
Ora, a sua obra plástica consubstancia-se nessa dinâmica existencial,
vindo a constituir-se veículo para o pensamento, assumindo-se como forma
ou meio de superar o abismo dos opostos e pôr em marcha o seu objectivo
último, o da revitalização dos espíritos e da sociedade. Tendo vindo a
ser designada por esse motivo de Plástica Social, dado que, a sua noção
de arte se alarga a este desígnio maior, o de suturar a ferida infligida
pelos traumas da guerra e, analogamente, curar a alma enferma do homem e
de todo o Planeta Terra, em prol de, à guisa de Heidegger, uma
ek-sistência autêntica. |
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a arte e o pós-guerra |
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Posteriormente à II Guerra Mundial o que alguns
artistas alemães têm em comum é esta reincidência simbólica no trauma,
ou na ideia de que arte servirá de compressa para a cicatrização da
ferida perpetrada pela guerra. Nesta perspectiva, a análise que se
poderá, e que aqui se pretende, fazer da arte pós-guerra fará confluir a
inscrição singular do artista no processo histórico que marcou as
consciências, incorporando a prática artística num desígnio colectivo e
maior. Neste quadro, não se prefigura ser tarefa fácil desvincular
totalmente certas gramáticas artísticas deste fenómeno da consciência
colectiva. De certa forma, e assim o é para Joseph Beuys, a arte adquire
um papel fundamental, um papel pedagógico, terapêutico e transformador,
na medida em que denota aspectos do situacionismo político, social e
ético.
Beuys representa, segundo Thierry de Duve, a oscilação entre a força e a
fraqueza, entre o sentido eminente e o patético, pois, encarna a
subjectividade redentora do sentimento trágico da existência e de
convocação ao sofrimento, ao humanismo e ao homem à venir . Esta
convergência dos opostos representa, basicamente, os dois pólos
semânticos que criam o nexo entre o macrocosmo e microcosmo, derivando,
por um lado, da força desintegradora e apocalíptica que é o fluxo da
omnipresença de um mal essencial na humanidade e, por outro, da ideia
simbólica de um definitivo colapso de um mundo que pertence ao passado e
que do caos se estrutura nas suas esculturas.
Esta dinâmica dos opostos está latente e é transversal à narrativa de
Beuys. A ideia de transformação e a dinâmica reintegradora dos opostos
são eixos analíticos centrais neste processo de configuração da utopia
da unidade cosmogónica.
A ideia de transformação vem a ser ademais um conceito importante e
transversal a toda a literatura e pensamento alemães depois da II guerra
mundial, a qual terá dado nome à revista Die Wandlung [A Transformação],
fundada em 1945. Sendo esta concepção transversal ao fluxo criador que
caracterizava a Alemanha posterior ao III Reich, especificamente, o
horizonte de recuperar a ‘alma alemã’ depois da selvajaria nazi e
recomeçar de novo, sob a forma da introspecção do indivíduo em prol do
alcance de um outro patamar espiritual, o da autêntica renovação. Neste
contexto, Beuys retoma a cultura alemã, anterior a Hitler e Bismark: a
Goethezeit, ou a Era Goethe: a designada geração Nullpunkt, ou Grau
Zero, e/ou Grupo 47 [Gruppe 47]. Geração que integrou a criação
literária do Pós-guerra, como os Siegfried Lenz, Günther Grass, Paul
Celan e Uwe Johnson. Estando, inclusivamente, documentada a grande
proximidade entre Beuys e, o seu amigo, Henrich Böll, que se inscreve na
designada ‘literatura dos escombros’ e que reflecte justamente uma das
grandes obsessões dos anos 50 e 60 na Alemanha: o trauma pela
experiência passada.
É esta vertigem, enfim, que virá a nutrir a Plástica
Social de Joseph Beuys.
Neste sentido e de acordo com a posição de alguns
críticos de arte, Beuys acaba por reincidir nos pressupostos da arte
total, da Gesamtkunstwerk.
Numa altura em que se desenvolviam outros movimentos artísticos que
viriam a inaugurar as tendências pós-estruturalistas e formalistas, como
é o caso paradigmático de Duchamp e dos dadaístas, Beuys vislumbrava-se
visionário, aspirando ainda a empreender o discurso infinito.
Ao contrário de Duchamp, Beuys rejeitava a
pressuposto de que a arte é um exercício de estilo, tendo a convicção
que esta seria a única forma de reencontrar a esperança. Para Duchamp a
arte era desconstrução, para Beuys a arte era vida, na senda do que irá
marcar a atitude Fluxus.
Em 11 de Novembro de 1964, Beuys apresenta uma acção
à qual chama The Silence of Marcel Duchamp is Overrated, onde exibe a
sua desaprovação em relação ao conceito de anti-arte, criticando o
‘silêncio’ de Duchamp posterior a 1923 . Numa entrevista com Bernard
Larmarche-Vadel, Beuys diz que Duchamp terá parado exactamente no ponto
em que poderia ter desenvolvido uma teoria baseada no trabalho
conseguido, e é essa a teoria que se encontra a desenvolver : a teoria
da Escultura Social, desmontando assim a aporia duchampiana. |
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a criatividade como o “capital” humano |
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Joseph Beuys é um artista com uma visão muito
própria, numa época particular em que em Nova Iorque surgem artistas
como Andy Warhol, do qual foi um grande amigo. Enquanto se vivenciava
uma época artística no resto do mundo ocidental que se pautava pelo
reflexo da desconstrução dos modelos e dos paradigmas da arte, Beuys
incorpora como projecto essa missão salvítica, tornando-se a
criatividade o meio para o conseguir. |
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Para Beuys, a criatividade é o
meio-ferramenta acessível a todos os homens, através da qual se
operará a verdadeira transformação da sociedade. A criatividade
constituiria assim o humus da transformação social, com a
vantagem de estar ao alcance de todos. Seria este o verdadeiro
‘capital’ do Ser Humano e não o poder económico ou outro,
presumindo-se como valor em potencial existente em todos os
seres humanos, pois, todo o ser humano é potencialmente um
artista.
Muitas das críticas que se dirigem a Beuys,
respectivamente ao seu conceito de arte total e à eventual
reincidência nos pressupostos da Era Goethe, se parecem
dissolver mediante esta democratização da arte. Esta ideia vem
aliás, e segundo Thierry De Duve , trazer Joseph Beuys ao tempo
da modernidade, visto que, a sua ideia da criatividade como
sinergia potenciadora da transformação opera o contraponto
necessário às ideias subjacentes ao conceito de arte total
decorrentes da herança Wagneriana, especificamente, a ideia de
que a arte é forma de ascensão à verdade.
Assenta neste pressuposto a condição
democrática do génio criador, ideia essa patente especificamente
em trabalhos como Rose for Direct Democracy [1973] (Fig.1) e,
sobretudo, na peça Capital Room [1970-1977]. |
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Capital Room foi uma instalação gigantesca que reunia
todas as suas aulas públicas, testemunhos das suas ideias, conversas e
conferências, apresentando-se na forma de painéis gigantes dispostos no
espaço sob a forma de signos, adquirindo estes elementos uma estrutura
racional e relacional, consistindo no geral num grande corpo doutrinal.
A criatividade nesta qualidade de trazer à presença o verdadeiro capital
humano simboliza, à guisa de Marx, a relação alegórica que se poderá
traçar entre o artista e o proletariado.
Em Economic Values [1980], onde utilizou os mais variados produtos como
a gordura, a graxa, a parafina e outros ingredientes quotidianos, Beuys
vai dando maior consistência à sua ideologia, pois esta peça traduz de
forma paradigmática a posição de ruptura com a convenção que atribui ao
artista um estatuto e domínio privados, revelando o segredo que é,
contraditoriamente, a ausência do segredo. Esta é a verdade que Beuys
pretende ensinar.
Estas peças exemplificam a obra de Beuys, são
construtos mentais que corporizam a filosofia que o artista defendia, na
medida em que resultam da inspiração das suas ideias estéticas e
políticas. Nesta perspectiva e tal como o observa Thierry Du Duve, se
desloca o território elitista da arte para a acção social e política,
com a incumbência de dar forma ao seu grandioso projecto: o da
‘estetização’ da sociedade e o da fusão entre arte e vida - que é, por
sua vez, resultado das influencias da Antroposofia de Rudolf Steiner e
Shiller e das quais resultou o seu conceito de ‘educação estética’ do
homem como via para a liberdade e via para a superação da degradação
humana. |
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engenhos da transformação |
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A Plástica Social de Beuys
oferece-nos uma visão da arte como engrenagem de transformação, portal
de passagem, agente regressivo, meio de revitalização e cura e, no
geral, veículo para a superação dos opostos, incorporando igualmente,
uma função social, espiritual, ética, política, pedagógica e
terapêutica.
Estes ‘abjectos’ dão forma
ao seu pensamento, ou seja, são os veículos físicos ou a matéria para o
pensamento. Este posicionamento artístico-ideológico dá ao seu projecto
uma abrangência conceptual da qual emerge o conceito de arte ampliada.
Uma visão ampliada que exala, contraditoriamente, da rusticidade e da
efemeridade das suas estruturas arquitectónicas.
Através das suas esculturas, Beuys
dá forma à sua experiência singular do mundo imolado pela guerra e, a um
tempo, convoca a experiência totalizadora da narrativa. Este ideário
parece pressupor uma verdade anterior à vertigem, à queda do
Ocidente.
Analogamente ao mito de Hefestus[i],
Beuys parece anunciar o declínio do humano, da fractura original. A
fractura vem revelar, a um tempo, a possibilidade de re-ligação [religare]
ao transcendente e, contraditoriamente, a falha, permitindo ao homem a
capacidade de intermediar o logos.
Beuys, profundamente influenciado
pela história do pensamento alemão[ii],
reflecte a preocupação sobre o estado do mundo em crise e apropria-se de
elementos oriundos das narrativas mitológicas, surgindo a mitologia como
generativa de uma ordem à priori.
Ao procurar revitalizar o sentido
do humano, manifesta-se, sobretudo na sua obra gráfica e nas suas
acções, uma associação expressiva às raízes profundas dos mitos
Teutónicos e ao Romantismo Clássico Alemão; torna-se, nem cínico nem
realista, mas certamente empoderado pelo sentimento da sua própria
grandeza ou da grandeza poética da civilização. |
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A sua arte torna-se enfim o veículo do
misticismo panteísta e romântico. Por exemplo, na sua
performance “I like America and America likes me”
apresentada na Galeria Block, em Nova Iorque, em 1974 (Fig. 2),
é central o coiote como significante mitológico da importância
deste animal na cultura ocidental americana. Nessa apresentação,
manteve-se em cativeiro juntamente com um coiote dentro de um
recinto no interior da galeria, durante o período de três dias.
O coiote (fig ao lado) foi eleito
por Beuys o animal totémico, um símbolo da América, um deus dos
índios. O animal, neste contexto, tornou-se signo mitológico ou
ponto nevrálgico do conflito latente da identidade ancestral
americana. |
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Neste caso, tal como em outras acções, os animais
assumem um estatuto mitológico, representando a incorporação da perda de
inocência. Por exemplo, na acção Eurásia , apresentada em 1966, Beuys
utiliza alguns materiais, objectos e animais: cruzes, despertadores,
termómetros e a lebre; esta foi uma das muitas acções performativas que
perpetrou, que sugerem o cruzamento das culturas ocidental e oriental: a
cruz representa a divisão entre o Oriente bizantino e o Ocidente romano;
a linha traçada no chão indica a separação; a lebre representa a energia
vital e espiritual, tal como o coiote, e o seu sacrifício simboliza a
ruptura das fronteiras espirituais e os conflitos entre os territórios;
representando-se, igualmente, na prática sacrificial o ritual do
renascimento, sugerindo-se a morte da lebre como a suprema acção
redentora. Mais uma vez, a ideia catalisadora do percurso artístico de
Joseph Beuys é a de transformação: a passagem de um estado a outro.
Tal como o seu conceito é devedor desta ideia de
transformação, os materiais utilizados são os organismos do conceito. Os
materiais tornam-se as nervuras da ideia e incorporam também a sua
característica essencial: a da transmutação.
De carácter informe e de natureza tosca e instável, os materiais que
utiliza nas esculturas têm uma nomenclatura mole e flácida, podendo,
quando sujeitos às sensações de calor ou frio, ter reacções diversas.
Beuys utiliza o Wärmecharakter, ou o caracter calor, como estratégia
para a metamorfose dos estados e assim se pressupor uma série de
reflexões sobre as ideias de indeterminação e de caos. O seu trabalho
Fond VII/2 [1967-1984] (Fig. 3) é, entre outros, disso ilustrativo : por
meio do calor ou do frio, os materiais alteram a sua forma e é nessa
transmutação dos estados que se obtém o equilíbrio. In extremis, este
carácter informe das formas remete para a ideia de que está em curso um
processo de transformação e de regressão à cena primeira ou Estado
Primeiro da matéria, ideia que consubstancia o seu Arcaísmo Místico.
Em suma, as suas acções, peças ou esculturas exalam
uma latente e febril bipolaridade, que oscila entre a opacidade dos
materiais e a secreta aspiração à unidade e à verdade, designadamente,
as suas ambiciosas concepções de transformação social, de renascimento e
de redenção, que revelam enfim a sua própria irresolução interior. |
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A teoria da Escultura Social de Beuys
reflecte a relação simbiótica entre a condição existencial que
caracterizou a sua vida e que se materializou na sua obra, tal
como, a sua Plástica Social dá corpo à forma como se tornou o
proletário e o avant-gard intratável, tal como o apelidou Danto.
A arte desempenha para Joseph Beuys, tal como a forja para
Hefestus, a função de prótese para o coto da Humanidade. |
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Bibliografia geral: |
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Alain Borer, The Essencial Joseph Beuys, Thames and Hudson, 1996, London
Carmen Bernárdez Sanchís, Joseph Beuys, Nerea, 1998, Madrid
Dardo, Delfim, “Isomorfismos: Mathew Barney e a memória de Beuys”, in
Dardo Magazine, nº 1, 2006
Mark Rosenthal et al., Joseph Beuys, Actions, Vitrines, Enviroments,
The Menil Collection, Houston in Association with Tate Publishing, 2005 |
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[i]Hefestus é o Deus
frágil/ semi-Deus, que através da sua habilidade para a forja
compensava a amputação das suas pernas provocada pela Queda da qual
foi vítima, quando atirado para fora do Olimpo pelo seu pai, Zeus. O
importante no mito de Hefestus é o itinerário desse deus, expulso do
Olimpo pelo pai, mais tarde pela mãe, teve em Tétis uma iniciadora
material e imaterial, ao lhe dar uma corda mágica que prendia na
cintura. Após tantas vicissitudes ao forjar o escudo de Aquiles,
Hefestus dá uma imagem da beleza da terra e mostra àquele que deseja
evoluir as alegrias e os riscos nela existentes.
[ii] “It
is for the Germans, a people of culture, to achieve the unity of the
spirit, dissociated by Ocidentals, a people of nature, and by
Anglo-French and Yankee Westerners, a people of civilization ...” M.
Tazerout, translator’s preface in Oswald Spengler, Le Déclin de
l’Occident. Equisse d’une morphologie de l’histoire
universelle, Paris, 1948 & 1976, p. 9
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Sónia da Silva Pina [1974]
A realizar projecto de doutoramento no âmbito
do curso de mestrado em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias, sobre
linguagens artísticas plurais, para uma análise semiótica da arte
contemporânea: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa; Pós-graduação em Cultura Portuguesa Contemporânea:
Instituto Camões e Universidade Aberta; Pós-graduação em Direito da
Comunicação: Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra;
Licenciatura em Filosofia: Faculdade de Letras da Universidade de
Coimbra; Artigos/comunicações e estudos publicados:
2007: “O Tédio: o grito do Eu no seu paradoxo: A configuração do Tédio
no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa” ["The oblivion: The
configuration of melancholy in the Book of Disquiet of Fernando
Pessoa"];
http://melancolia.eusou.com/TEXTOSHTML/sonia.html.
2008: Comunicação apresentada a convite da Câmara Municipal de Setúbal,
no âmbito do ciclo de conversas interculturais “às voltas com…”, com o
tema “Culturas Urbanas, vidas urbanas”, no contexto da celebração do Ano
Europeu do Diálogo Intercultural; “Guerrilla Girls: a máscara como (des)ocultação.
Considerações sobre o corpo queer, a performance radical e a máscara no
a(r)tivismo das Guerrilla Girls”, comunicação apresentada no Congresso
Feminista, Artes e Feminismo na Faculdade de Belas Artes da Universidade
de Lisboa. Publicada em et al. “Quem Tem Medo dos Feminismos?”, Colecção
Pallar Athenas-Feminismos, Actas do Congresso Feministas, Nova Delphi,
Lisboa. ["Guerrilla Girls: the mask as revelation. thoughts about queer,
feminism, radical performance, and mask in the work of the Guerrila
Girls"], presented in Feminist Seminar, in the Arts Faculty, in Lisbon
University;
http://www.congressofeminista2008.org
2009: "O Eu em 'closed-circuit': da (des)sincronização da imagem à
natureza estrutural do 'medium da artista Joan Jonas'”: Comunicação
apresentada no âmbito do Congresso internacional Género, Media e Espaço
Público, promovido pelo Instituto de Estudos Jornalísticos (IEJ) da
Universidade de Coimbra e o Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ)
dias 22 e 23 de Outubro (sessão 10); ["The identity in closed-circuit:
one possible analisys of the video work 'Closed-Circuit' of the artist
Joan Jonas"], presented in Internacional Seminar Gender, Media and
Public, promoted by Institute of Media Research in Coimbra University,
2009; eBook: http://mediagenero.wordpress.com
2010: "I Like America & America Likes Me": a aktion trangressora e o
corpo por vir em Joseph Beuys”: Comunicação apresentada no âmbito do
LINE UP: Festival International da Performance, Coimbra ["like America &
America Likes Me: the transgressive aktion and the queer body in Joseph
Beuys"], presented in the Performance Festival Line-Up, Coimbra,
Portugal, 2010; http://www.iczero.org/lineupaction/english/events.html
2005/06: “Igualdade é Oportunidade: Diagnóstico e Intervenção para a
Melhoria da Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens no Sector
Alimentar”: um estudo sobre a taxa de feminização no sector alimentar
(análise de género), POEFDS
2010: “Quando não existe uma segunda casa: Estudo sobre a Saúde dos
refugiados numa perspectiva de vulnerabilidade”, no âmbito Associação
GIS, projecto financiado pelo Fundo Europeu para os Refugiados e pela
Fundação Calouste Gulbenkian.
Email: sonia.s.pina@gmail.com
http://www.facebook.com/people/Pina-Sonia/1485498890
http://gisassociacao.blogspot.com
http://barrosantonio.wordpress.com |
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© Maria Estela Guedes
estela@triplov.com
Rua Direita, 131
5100-344 Britiande
PORTUGAL |
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