REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências


Nova Série | 2010 | Número 07

   

 

 

 

ESPECIAL

NICOLAU SAIÃO

NOS 20 ANOS DE “OS OBJECTOS INQUIETANTES”

Prémio Revelação/Poesia APE/IPPL -1990

Uma antologia

 

 
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Maria Estela Guedes  
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NICOLAU SAIÃO

Os objectos inquietantes

antologia -index

                                                                            Nicolau Saião
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
 
  A MESA
 

Ver-te assim de lado como uma coisa

apenas, madeira e ferro servindo de

desculpa a tudo, ao mistério por e-

xemplo mineral do sexo: sob, entre,

em. Áustria, Istambul, Irlanda ou

simples e clara na quinta dos anos

idos, absolutos; e todas as memo-

rias escritas de talvez um lugar

convencional de orgias e sóbrios jan-

tares de família: daqui se parte

nupcialmente. Em tempos era então a ca-

rícia, a serra despovoada, o barco

futuro, enquanto nas raízes a chuva

ia deixando o lume de mortes e bom-

bas – edifícios tombando na infância

de quem sabe. Também

 

pinheiros depois e mãos de pais e

netos, cunhados, a multidão habitual

das mesas. As de um as de ou-

tros crescendo, renovando-se fixas.

Contava-se do mar em antigos prodí-

gios: braços cortados, uma rodela de

ouro, um seio deposto de resgate. Sol

na manhã nadando afirmando o princí-

pio escondido do rosto que se amou,

finalmente por nós guardado como tudo o

que sob a mesa se coloca. E

solidão e náusea e pedaços de pão

 

ressequido que os animais rejeitam. A pa-

lavra se senta enfim connosco avidamente

à mesa. E acha-se a vontade de possuir co-

mo no passado as tardes e de súbito se diz

sem resposta: essa a mesa estelar, a roupa

ardente de no púbis tocar-se como em estru-

tura grega. Depois, pausadamente, o móvel

que se inclina e erguido repousa no ar noc-

turno das moscas que a habitam. E em cima

se faz dela dia-a-dia como que usual lar-

gada de objectos antigos, bocados de tempo, os

excrementos, miolos de alimentos perdidos no

campo de casas como em branca solene

existência inteira.

 

Não há assim no Mundo

mesas de morte.

 

 

 NICOLAU SAIÃO [FRANCISCO GARÇÃO]
 [
Monforte do Alentejo,1949, Portugal]
Poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico. Efectuou palestras e participou em mostras de Mail Art e exposições em diversos países. Livros: “Os objectos inquietantes”, “Flauta de Pan”, “Os olhares perdidos”, “Passagem de nível”, “O armário de Midas”, “Escrita e o seu contrário” (a publicar). Tem colaboração dispersa por jornais e revistas nacionais e estrangeiros (Brasil, França, E.U.A. Argentina, Cabo Verde...).
CONTATO: nicolau49@yahoo.com

 

 

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